Ennio Morricone na liturgia católica em Portugal
O texto da balada final do filme não me dizia nada de especial: Here’s to you, Nicolas and Bart/ Rest for ever here in our hearts/ The last and final moment is yours/ That agony is your triumph. (“Isto é para vocês, Nicolas e Bart, permaneceis para sempre aqui, nos nossos corações, o último e derradeiro momento é vosso, essa agonia é o vosso triunfo”).
A música, sim, acabou por me cativar. Trata-se de uma melodia muito simples, composta de quatro frases: AA’BA’’, baseada num baixo contínuo (ostinato) que lhe faculta a harmonia de Mi menor com uma ligeira modulação a Sol Maior na terceira frase. Mas o que mais me interessou foi a orquestração: iniciado o ostinato nos graves do piano, logo seguido pelo mesmo em terceiras paralelas, a que se junta um órgão em contraponto igualmente simples, mas cativante, depois do qual se apresenta a voz do solista. Esta é depressa dobrada por um pequeno grupo, que por sua vez vai engrossando de volume até constituir um verdadeiro clímax coral, agora com o apoio de toda uma orquestra ligeira e sempre sobre a base do tal ostinato, agora nos baixos da mesma.
Diante de tanta simplicidade “complexa”, sem pensar na origem da composição, veio-me à ideia aproveitar aquela música para as minhas celebrações sacras e litúrgicas: parecia-me que aquela melodia entrava facilmente no ouvido, era rica em harmonia e podia servir de comunhão a grupos de fé. Pedi então ao Manuel Neto, o poeta exímio daquela equipa diocesana de música, que me fizesse uma letra interventiva à sua maneira, que ficasse bem com aquela melodia, mas ele demorou a responder-me.
Com a música a encher-me a cabeça, numa noite decidi-me a ensaiar um rascunho que encaixasse na dita melodia e saiu-me, com certa facilidade, um texto que primava por algum dinamismo, com verbos activos (faz, escolhe, vai, constrói, abraça…), o que eu pretendia dos meus grupos de intervenção pastoral e litúrgica. Foi assim que surgiu o “Faz a paz, escolhe o amor. Vai, constrói um mundo melhor. Abraça os homens: são teus irmãos. Serás feliz na união.”
Transcrevi, então, de ouvido a música cantada por Joan Baez, com as harmonias e a possível orquestração que adaptei com alguma facilidade ao meu conjunto instrumental utilizado nas liturgias de que era responsável.
Ensaiada ao meu Grupo Coral de Cristo Rei (Gaia), com agrado geral, serviu de inúmeras maneiras e nas mais diversas celebrações: desde as Gospel Night (espécie de Liturgia da Palavra), que eu tinha importado de França, como a Vers l’Homme (que traduzi e adaptei com o título Ao encontro do homem e que a RTP transmitiu após o 25 de Abril de 1974) e que apresentei diversas vezes em várias igrejas da diocese do Porto, até à sua utilização nas missas. Naquelas Gospel Night, o “Faz a Paz, escolhe o amor…” constituiu grande apoteose final: com os instrumentos a apresentarem suavemente os ostinatos originais, seguindo-se a declamação do texto por uma solista, que logo o entoava, a que se seguia uma parte do coro e por fim todo o coro, com a intervenção da assembleia presente convidada a participar com entusiasmo crescente, constituindo o clímax que Morricone previra na balada final do filme.
Eis aí a história do meu encontro com a melodia singela, popular, de Ennio Morricone. A sua divulgação por todo o país cristão, mesmo no abraço eucarístico da paz, em cancioneiros litúrgicos quase sempre anónimos, só comprova a validade da aposta inicial numa “paródia” (termo perfeitamente justificado pela Musicologia através dos séculos, mesmo na Igreja) que bateu certo e comoveu tanta gente em Portugal. Comoveu e comove, como se comprova pela minha intervenção de há dois anos num encontro da Fraternitas em Alfragide, quando vários ex-padres, diante da presença autorizada do pastor Dimas de Almeida, se envolveram em discussão de lana caprina, eu proclamei bem alto “Faz a paz, escolhe o amor…” entoando a melodia de Morricone, logo seguida pela assembleia assumidamente vencida pela força daquela mensagem musical.
Sirva o presente testemunho como homenagem que um musicólogo português presta à memória de um autor inesquecível de grande música de filmes, não sei se também de música sacra, que foi Ennio Morricone. Fico apenas com pena de não ter comunicado com o compositor quando, o ano passado, juntou multidões no concerto em Lisboa, na sua última passagem por Portugal, propondo para o grande coro a balada do mesmo para o filme Sacco e Vanzetti, travestida de envolvimento cristão.
José Maria Pedrosa Cardoso é musicólogo, autor de vários livros de Musicologia e professor aposentado da Universidade de Coimbra.
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