A conquista de seriedade das casas espíritas e o Kardecismo em Portugal
“Se existe preconceito para com este tipo de crenças? Ainda existe algum. Quando fiz o estágio na casa espírita, tive contacto com senhoras do Brasil que, quando tinham que dizer no trabalho que iam a uma casa espírita, diziam que iam à igreja.” As palavras são de Solange Martinho, investigadora no Núcleo de Investigação em Género e Religião e no Instituto do Cristianismo Contemporâneo, ambos da Universidade Lusófona de Lisboa. Solange tem dedicado parte do seu tempo a estudar o espiritismo Kardecista em Portugal. Desenvolveu um estágio para fins académicos num grupo espírita em Algés, sobre o qual fez um relatório de estágio para obtenção do mestrado em Ciência das Religiões.
Nesta segunda-feira, 14 de janeiro, às 15h, Solange Martinho estará na Universidade Católica Portuguesa a apresentar uma conferência sobre “A Expressão do Espiritismo Kardecista em Portugal, pós 25 de Abril”, no âmbito de um ciclo do Centro de Estudos de História Religiosa sobre a diversidade religiosa na sociedade contemporânea.
O espiritismo kardecista é assim chamado por causa de Allan Kardec, pseudónimo do autor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, que foi “quem estudou muito e codificou a mensagem que os espíritos traziam”.
Kardec começou a comunicar com os espíritos, fazendo perguntas de sim ou não, e convidava figuras da alta sociedade para assistir a essas sessões. Em Portugal, era semelhante: as pessoas da alta sociedade reuniam-se, clandestinamente, para assistir a comunicações: “Já na altura da ditadura de Salazar se dizia que as mulheres iam à missa e quando de lá saíam iam às bruxas – ou seja havia espiritismo, mas não se falava nesses termos.”
Segundo a investigadora, o espiritismo é todo baseado no cristianismo e muito ligado a Jesus, seguindo também as obras de Kardec, cinco livros sobre o espiritismo: Livro dos Espíritos, Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Génese. Além disso, o ponto chave da doutrina é o assistencialismo a pessoas mais carenciadas, dando grande importância à ajuda de sem-abrigo e grávidas.
“O espiritismo contempla sempre três aspetos: filosofia, ciência e religião. Mas há uma diferença entre espiritismo e espiritualismo. Espiritismo é só mesmo de Kardec e de comunicação com os espíritos.”
Em Portugal, a expressão tem crescido devido a migrações do Brasil, um país onde os espíritas são considerados uma fé como qualquer outra e muito respeitada. Em Portugal e ilhas, há, aproximadamente, 120 casas espíritas, de acordo com dados da ADEP (Associação dos Divulgadores do Espiritismo em Portugal), mas apenas 72 estão inscritas na Federação Espirita Portuguesa. Quase todas as casas estão registadas como Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS).
Para a investigadora, o preconceito “ainda existe” mas, do que tem observado, “já foi pior”: “Na atualidade, a própria Câmara Municipal de Lisboa permite que o grupo espírita forneça sopa aos sem-abrigo porque o reconhece como uma entidade que faz um trabalho sério e de contribuição com o Estado.”
Solange Martinho conta ainda que, no seu estágio no Grupo Espírita Batuíra, em Algés, uma grande casa tanto em Portugal como no Brasil, se apercebeu que esta casa serve como uma “espécie” de escola de formação para os adeptos, que em alguns casos, iniciam outros grupos, noutros locais. É ainda um espaço onde convivem pessoas de todas as classes sociais.
“Os grupos espíritas estão a conquistar a seriedade” no espaço social e religioso, diz. “Acho que está a ser muito bem aceite e, pelo que tenho investigado, são pessoas sérias,” conclui.
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