Manchester, ‘City’ nem sempre ‘United’ – Da Revolução Industrial ao futebol

| 24 Jan 19 | Sete Partidas, Últimas

 

Manchester acolheu-me na área de Ancoats, ali onde a Revolução Industrial encontrou as suas primeiras realizações, com a construção de muitas fábricas têxteis no século XIX.

Eamonn Mulcahy, nascido e crescido em Manchester, tem feito sucessivas visitas guiadas a esta cidade e a uma história rica e plural. Missionário espiritano de 65 anos, doutorado em teologia, é professor e responsável de pastoral nesta área da cidade, que sempre foi periferia e local de habitação de pessoas mais pobres. História, economia, cultura, sociedade, desporto… eis algumas das áreas de ‘visita guiada’ que me têm enriquecido nestes dias.

 

Era uma vez uma máquina a vapor…

Tentando um encontro com a História, Eamonn sugeriu-me diversos livros que contam como os romanos chegaram a esta terra e fundaram a cidade logo no ano 79, tendo-a abandonado mais tarde. Foi terra cobiçada por muitos, vítima de muitas guerras e revoluções. Mas o momento mais crucial da história desta terra e deste povo foi a Revolução Industrial.

A máquina a vapor e a sua aplicação na indústria virou Manchester do avesso, naquele já longínquo início do século XIX. Foi aqui que se instalaram as primeiras grandes indústrias têxteis que, durante décadas, não pararam de crescer e geraram fortunas. Chegavam trabalhadores vindos de todas as ilhas britânicas e até do continente, tal a necessidade de mão de obra. Se, em 1757, Manchester tinha 17 mil habitantes, em 1891 já contava com 563 mil.

Visitar a Grande Biblioteca de Manchester permite ver imagens e ler textos acerca do trabalho têxtil, da dureza de vida que os trabalhadores levavam, das muitas doenças de que eram vítimas… É hoje impressionante enfrentar esta realidade histórica, pois os patrões ganhavam fortunas e os trabalhadores viviam em condições miseráveis, amontoados em casas sem quaisquer condições para se habitar. Regalias sociais não as havia porque esta nova era estava a dar os primeiros passos e não existiam leis para regular a relação sempre tensa entre um patronato que quer facturar ao máximo e um operariado que deve exigir condições mínimas de dignidade.

Houve progresso, todos o sabemos. A revolução industrial, como todas, foi uma espada de dois gumes, com o melhor e o pior. O desenvolvimento tecnológico trouxe bem-estar para uma parte da população, mas também gerou muitas injustiças sociais e problemas ambientais graves, como a poluição do ar e das águas. Aqui em Manchester, lembrou-me Eamonn Mulcahy, nasceram os primeiros sindicatos (Trade Unions) e as primeiras cooperativas entre trabalhadores. Daqui partiu o primeiro comboio para Liverpool, em 1826.

 

‘Respostas’ à revolução industrial

Há dias, o padre Eammon trouxe-me o livro de Friedrich Engels sobre A Condição da Classe Trabalhadora em Inglaterra, escrito em 1845. Li uma parte sobre Manchester e tentei perceber o resto: alemão, filho de grande empresário têxtil em Manchester, foi vendo  e gravando as péssimas condições que os trabalhadores tinham e o alto nível de vida dos empresários. Neste texto emblemático, que serviu também de inspiração a O Capital, de Karl Marx (de quem Engels se tornaria muito amigo, acabando por parar ambos em Inglaterra), Engels dá início a uma reflexão sobre os direitos dos operários. 

Se Engels respondeu com a denúncia e a criação de uma cultura sindical, Henriqueta Rylands optou pelo apoio à cultura. O seu marido herdou uma grande fábrica têxtil e muitos negócios que lhe deram uma fortuna enorme. Quando ele morreu em 1888, Henriqueta decidiu empenhar 2,5 milhões de libras (uma fortuna naquele tempo) e construiu a monumental John Rylands Livrary para apoiar a formação académica e religiosa de jovens em Manchester. É hoje um dos locais obrigatórios de visita.

A Igreja Católica em Manchester, naquele tempo, era uma comunidade residual, sem grande expressão, embora mais numerosa que em Londres. Sabemos que o Papa Leão XIII quando, em 1891, publicou a primeira grande encíclica social (Rerum Novarum), atacou as consequências negativas da Revolução Industrial, servindo-se da reflexão feita por numerosos cristãos já muito ativos na área social (45 anos depois do livro de Engels). Ao que se sabe, as experiências resultantes da atividade pastoral em Manchester foram tidas em linha de conta.

 

Manchester hoje: futebol e um mosaico de culturas

O novo Ethiad Stadium, do City, enorme e sumptuoso, pago por dinheiros árabes, foi construído numa parte da cidade que era uma autêntica favela; foto Tony Neves

A glória e a riqueza da indústria têxtil que enchia esta área de Ancots acabou. As fábricas foram fechadas há muito, restando alguns edifícios e estando outros a ser recuperados para fins habitacionais. Mas a região continua pobre e periférica, com muitos problemas sociais, como recorda o padre Eamonn, pároco há alguns anos das três comunidades católicas locais.

Manchester, no seu todo, converteu a economia e continua próspera, com muitos prédios em construção. A ‘abelha’, símbolo da cidade, gravada em tantos lados, mostra a relação umbilical entre esta terra e o trabalho organizado.

Hoje, há aqui duas ‘empresas’ muito importantes e a facturar milhões: o Manchester United e o Manchester City. O novo campus desportivo do City – construído em ‘território’ da paróquia do Espírito Santo –, enorme e sumptuoso, pago por dinheiros árabes (daí o nome Ethiad Stadium), foi construído numa parte da cidade que era uma autêntica favela, como recordou o padre Eamonn, lembrando os seus tempos de menino e moço.

Mas a abertura de Manchester ao mundo continua e esta parte da cidade bem o prova: aqui vivem pessoas vindas dos quatro cantos da terra. Muita gente chegou do continente para fugir às duas guerras mundiais. Outros chegaram das ex-colónias por ocasião das independências. Hoje chegam os que fogem de guerras e misérias que vão dizimando pessoas um pouco por todo o mundo. As três comunidades confiadas aos missionários espiritanos têm membros da Grã-Bretanha, do resto da Europa, de boa parte dos países da África, da Ásia e da América Latina. As assembleias na celebração são um mosaico de povos e culturas.

Tony Neves é padre católico e responsável do Departamento da Justiça e Paz dos Missionários do Espírito Santo (espiritanos), de cuja congregação é membro.

Breves

Astérix inclui protagonista feminina que se assemelha a Greta no seu novo álbum novidade

Astérix e Obélix, dois dos nomes mais icónicos da banda desenhada franco-belga, regressam no 38º álbum da dupla, que celebra igualmente os 60 anos da série criada em 1959 por Albert Uderzo e René Goscinny. Nesta história, há uma nova personagem: Adrenalina, filha desconhecida do lendário guerreiro gaulês Vercingétorix, que introduz o tema das diferenças entre gerações.

Nobel da Economia distingue estudos sobre alívio da pobreza novidade

O chamado “Nobel” da Economia, ou Prémio Banco da Suécia de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel, foi atribuído esta segunda-feira, 14 de outubro, pela Real Academia Sueca das Ciências aos economistas Abijit Banerjee, Esther Duflo e Michael Kremer, graças aos seus métodos experimentais de forma a aliviar a pobreza.

Boas notícias

É notícia

Cultura e artes

“Aquele que vive – uma releitura do Evangelho”, de Juan Masiá

Esta jovem mulher iraniana, frente ao Tribunal que a ia julgar, deu, autoimolando-se, a sua própria vida, pelas mulheres submetidas ao poder político-religioso. Mas não só pelas mulheres do seu país. Pelas mulheres de todo o planeta, vítimas da opressão, de maus tratos, de assassinatos, de escravatura sexual. Era, também, assim, há 2000 anos, no tempo de Jesus. Ele, através da sua mensagem do Reino, libertou-as da opressão e fez delas discípulas. Activas e participantes na Boa Nova do Reino de Deus.

Arte e arquitectura religiosa com semana cheia em Lisboa

Visitas à arte e arquitecura de igrejas e conventos e um curso livre sobre Arte Moderna e Arte da Igreja são várias iniciativas previstas para os próximos oito dias em Lisboa. O curso decorrerá na Capela do Rato (Lisboa), entre segunda e sexta da próxima semana (dias 23 a 27) e na Igreja de Moscavide (sábado, 28) e pretende evoca o livro publicado há 60 anos pelo padre Manuel Mendes Atanásio, mas também os 50 anos do fim do MRAR.

Pessoas

Manuela Silva: “Gostei muito de viver!”

Manuela Silva: “Gostei muito de viver!” novidade

“Diz aos meus amigos que gostei muito de viver.” Nos derradeiros momentos de vida, já no hospital, Manuela Silva pegara na mão da irmã que a acompanhou nos últimos meses, olhando-a e, com plena consciência de que vivia os instantes finais, deu-lhe o último recado: “Vou partir, mas diz aos meus amigos que gostei muito de viver.” A sua memória será recordada nesta segunda-feira, 14, às 19h15, na Capela do Rato, numa eucaristia presidida pelo patriarca de Lisboa.

Sete Partidas

Hoje não há missa

Na celebração dos 70 anos da República Popular da China (RPC), que se assinalam no próximo dia 1 de outubro, são muitas as manifestações militares, políticas, culturais e até religiosas que se têm desenvolvido desde meados de setembro. Uma das mais recentes foi o hastear da bandeira chinesa em igrejas católicas, acompanhado por orações pela pátria.

Visto e Ouvido

Agenda

Out
17
Qui
Apresentação do livro “Dominicanos. Arte e Arquitetura Portuguesa: Diálogos com a Modernidade” @ Convento de São Domingos
Out 17@18:00_19:30

A obra será apresentada por fr. Bento Domingues, OP e prof. João Norton, SJ.

Coorganização do Instituto São Tomás de Aquino e do Centro de Estudos de História Religiosa. A obra, coordenada pelos arquitetos João Alves da Cunha e João Luís Marques, corresponde ao catálogo da Exposição com o mesmo nome, realizada em 2018, por ocasião dos 800 anos da abertura do primeiro convento da Ordem dos Pregadores (Dominicanos em Portugal.

Nov
8
Sex
Colóquio internacional Teotopias – Sophia, “Trazida ao espanto da luz” @ Univ. Católica Portuguesa - Polo do Porto
Nov 8@09:00_19:30

Fundacional para a percepção e expressão do mistério, a linguagem poética é lugar de uma articulação paradoxal, nada acrescentando à representação descritiva do mundo [Ricoeur]. Encontrando-se o positivismo teológico em crise, paradigma que sempre cedeu demasiado à obsessão pela verdade, tem-se vindo a notar um crescente interesse pelo estudo teológico de produções literárias como lugares de redenção da linguagem referencial, própria do discurso tradicional da teologia. Na sua performatividade quase litúrgica, a linguagem poética aproxima o objecto do discurso teológico do seu eixo verdadeiramente referencial: “a transluminosa treva do Silêncio” [Pseudo-Dionísio Areopagita].

Cátedra Poesia e Transcendência | Sophia de Mello Breyner [UCP Porto], em parceria com a Faculdade de Teologia e o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, organiza um congresso no âmbito das hermenêuticas do religioso no espaço literário, com especial incidência sobre a sua dimensão poética.
O colóquio terá lugar na Universidade Católica Portuguesa | Porto, nos dias 8 e 9 de novembro de 2019, e dará particular atenção aos seguintes eixos temáticos: linguagem poética e linguagem teológica: continuidades e descontinuidades; linguagem poética e linguagem mística: inter[con]textualidades; linguagem poética e sagrado: aproximações estético-fenomenológicas.

Nov
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Sáb
Colóquio internacional Teotopias – Sophia, “Trazida ao espanto da luz” @ Univ. Católica Portuguesa - Polo do Porto
Nov 9@09:00_19:30

Fundacional para a percepção e expressão do mistério, a linguagem poética é lugar de uma articulação paradoxal, nada acrescentando à representação descritiva do mundo [Ricoeur]. Encontrando-se o positivismo teológico em crise, paradigma que sempre cedeu demasiado à obsessão pela verdade, tem-se vindo a notar um crescente interesse pelo estudo teológico de produções literárias como lugares de redenção da linguagem referencial, própria do discurso tradicional da teologia. Na sua performatividade quase litúrgica, a linguagem poética aproxima o objecto do discurso teológico do seu eixo verdadeiramente referencial: “a transluminosa treva do Silêncio” [Pseudo-Dionísio Areopagita].

Cátedra Poesia e Transcendência | Sophia de Mello Breyner [UCP Porto], em parceria com a Faculdade de Teologia e o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, organiza um congresso no âmbito das hermenêuticas do religioso no espaço literário, com especial incidência sobre a sua dimensão poética.
O colóquio terá lugar na Universidade Católica Portuguesa | Porto, nos dias 8 e 9 de novembro de 2019, e dará particular atenção aos seguintes eixos temáticos: linguagem poética e linguagem teológica: continuidades e descontinuidades; linguagem poética e linguagem mística: inter[con]textualidades; linguagem poética e sagrado: aproximações estético-fenomenológicas.

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Entre margens

O politicamente incorrecto

Num debate em contexto universitário, precisamente em torno da questão do politicamente correcto, Ricardo Araújo Pereira afirmou que, embora fosse contra o “politicamente correcto”, não era a favor do “politicamente incorrecto”.

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