Manchester, ‘City’ nem sempre ‘United’ – Da Revolução Industrial ao futebol

Manchester acolheu-me na área de Ancoats, ali onde a Revolução Industrial encontrou as suas primeiras realizações, com a construção de muitas fábricas têxteis no século XIX.
Eamonn Mulcahy, nascido e crescido em Manchester, tem feito sucessivas visitas guiadas a esta cidade e a uma história rica e plural. Missionário espiritano de 65 anos, doutorado em teologia, é professor e responsável de pastoral nesta área da cidade, que sempre foi periferia e local de habitação de pessoas mais pobres. História, economia, cultura, sociedade, desporto… eis algumas das áreas de ‘visita guiada’ que me têm enriquecido nestes dias.
Era uma vez uma máquina a vapor…
Tentando um encontro com a História, Eamonn sugeriu-me diversos livros que contam como os romanos chegaram a esta terra e fundaram a cidade logo no ano 79, tendo-a abandonado mais tarde. Foi terra cobiçada por muitos, vítima de muitas guerras e revoluções. Mas o momento mais crucial da história desta terra e deste povo foi a Revolução Industrial.
A máquina a vapor e a sua aplicação na indústria virou Manchester do avesso, naquele já longínquo início do século XIX. Foi aqui que se instalaram as primeiras grandes indústrias têxteis que, durante décadas, não pararam de crescer e geraram fortunas. Chegavam trabalhadores vindos de todas as ilhas britânicas e até do continente, tal a necessidade de mão de obra. Se, em 1757, Manchester tinha 17 mil habitantes, em 1891 já contava com 563 mil.
Visitar a Grande Biblioteca de Manchester permite ver imagens e ler textos acerca do trabalho têxtil, da dureza de vida que os trabalhadores levavam, das muitas doenças de que eram vítimas… É hoje impressionante enfrentar esta realidade histórica, pois os patrões ganhavam fortunas e os trabalhadores viviam em condições miseráveis, amontoados em casas sem quaisquer condições para se habitar. Regalias sociais não as havia porque esta nova era estava a dar os primeiros passos e não existiam leis para regular a relação sempre tensa entre um patronato que quer facturar ao máximo e um operariado que deve exigir condições mínimas de dignidade.
Houve progresso, todos o sabemos. A revolução industrial, como todas, foi uma espada de dois gumes, com o melhor e o pior. O desenvolvimento tecnológico trouxe bem-estar para uma parte da população, mas também gerou muitas injustiças sociais e problemas ambientais graves, como a poluição do ar e das águas. Aqui em Manchester, lembrou-me Eamonn Mulcahy, nasceram os primeiros sindicatos (Trade Unions) e as primeiras cooperativas entre trabalhadores. Daqui partiu o primeiro comboio para Liverpool, em 1826.
‘Respostas’ à revolução industrial
Há dias, o padre Eammon trouxe-me o livro de Friedrich Engels sobre A Condição da Classe Trabalhadora em Inglaterra, escrito em 1845. Li uma parte sobre Manchester e tentei perceber o resto: alemão, filho de grande empresário têxtil em Manchester, foi vendo e gravando as péssimas condições que os trabalhadores tinham e o alto nível de vida dos empresários. Neste texto emblemático, que serviu também de inspiração a O Capital, de Karl Marx (de quem Engels se tornaria muito amigo, acabando por parar ambos em Inglaterra), Engels dá início a uma reflexão sobre os direitos dos operários.
Se Engels respondeu com a denúncia e a criação de uma cultura sindical, Henriqueta Rylands optou pelo apoio à cultura. O seu marido herdou uma grande fábrica têxtil e muitos negócios que lhe deram uma fortuna enorme. Quando ele morreu em 1888, Henriqueta decidiu empenhar 2,5 milhões de libras (uma fortuna naquele tempo) e construiu a monumental John Rylands Livrary para apoiar a formação académica e religiosa de jovens em Manchester. É hoje um dos locais obrigatórios de visita.
A Igreja Católica em Manchester, naquele tempo, era uma comunidade residual, sem grande expressão, embora mais numerosa que em Londres. Sabemos que o Papa Leão XIII quando, em 1891, publicou a primeira grande encíclica social (Rerum Novarum), atacou as consequências negativas da Revolução Industrial, servindo-se da reflexão feita por numerosos cristãos já muito ativos na área social (45 anos depois do livro de Engels). Ao que se sabe, as experiências resultantes da atividade pastoral em Manchester foram tidas em linha de conta.
Manchester hoje: futebol e um mosaico de culturas

O novo Ethiad Stadium, do City, enorme e sumptuoso, pago por dinheiros árabes, foi construído numa parte da cidade que era uma autêntica favela; foto Tony Neves
A glória e a riqueza da indústria têxtil que enchia esta área de Ancots acabou. As fábricas foram fechadas há muito, restando alguns edifícios e estando outros a ser recuperados para fins habitacionais. Mas a região continua pobre e periférica, com muitos problemas sociais, como recorda o padre Eamonn, pároco há alguns anos das três comunidades católicas locais.
Manchester, no seu todo, converteu a economia e continua próspera, com muitos prédios em construção. A ‘abelha’, símbolo da cidade, gravada em tantos lados, mostra a relação umbilical entre esta terra e o trabalho organizado.
Hoje, há aqui duas ‘empresas’ muito importantes e a facturar milhões: o Manchester United e o Manchester City. O novo campus desportivo do City – construído em ‘território’ da paróquia do Espírito Santo –, enorme e sumptuoso, pago por dinheiros árabes (daí o nome Ethiad Stadium), foi construído numa parte da cidade que era uma autêntica favela, como recordou o padre Eamonn, lembrando os seus tempos de menino e moço.
Mas a abertura de Manchester ao mundo continua e esta parte da cidade bem o prova: aqui vivem pessoas vindas dos quatro cantos da terra. Muita gente chegou do continente para fugir às duas guerras mundiais. Outros chegaram das ex-colónias por ocasião das independências. Hoje chegam os que fogem de guerras e misérias que vão dizimando pessoas um pouco por todo o mundo. As três comunidades confiadas aos missionários espiritanos têm membros da Grã-Bretanha, do resto da Europa, de boa parte dos países da África, da Ásia e da América Latina. As assembleias na celebração são um mosaico de povos e culturas.
Tony Neves é padre católico e responsável do Departamento da Justiça e Paz dos Missionários do Espírito Santo (espiritanos), de cuja congregação é membro.
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[Entre Margens]
Peregrinação de férias pela Euro-Ásia
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[Entre Margens]
Profecias apocalípticas e a esperança cristã
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A caminho de novas “demandas”
No Movimento do Graal, tanto em Portugal como no âmbito internacional, a palavra “demanda” é estruturante para estarmos sintonizadas numa busca espiritual contínua e ativa “dos mistérios insondáveis de Deus”. Mesmo estando longe das pessoas com quem partilhei mais vivências nesta procura, sobretudo em Portugal, a dinâmica sobrevive e encontra sentido em novos contextos. [Texto de Marijke de Koning]















