Naquele tempo ou neste tempo?

| 14 Fev 19

[Realiza-se amanhã, sexta-feira, 15, às 10h30, no Salão Medieval da UM, em Braga, a cerimónia de doutoramento honoris causa de frei Bento Domingues, teólogo, frade dominicano e autor do livro A Religião dos Portugueses, e também de Álvaro Laborinho Lúcio, antigo ministro da Justiça e membro de várias organizações ligadas aos direitos da crianças. 

Antecipando a cerimónia, decorre na tarde desta quinta-feira, 14, às 18h, na Sala de Atos do Instituto de Ciências Sociais (Campus de Gualtar), um debate que junta os dois novos doutores honoris causa. A conversa será moderada e comentada por Isabel Estrada Carvalhais, responsável pela licenciatura e doutoramento em Ciência Política da UM, e por António Marujo, director do 7MARGENS.

Por ocasião do acontecimento, o 7MARGENS convidou frei Bento Domingues a explicar o seu trajecto teológico. Um percurso que se tem afirmado sobretudo pela intervenção pública, através de conferências, participação em debates, crónicas semanais no Público e em outras publicações, bem como por intervenções em múltiplas iniciativas religiosas, e cujo percurso se cruza com as preocupações cívicas que nunca deixou de manifestar; na TSF, é possível escutar também, a propósito deste acontecimento, uma entrevista de frei Bento, disponível nesta ligação.]

 

1. O meu percurso teológico começou com a impossibilidade de aceitar, ainda criança, as explicações dos padres acerca do que se devia acreditar e fazer para ir para o Céu, jogando sempre com a ameaça do Inferno.

Foi a pregação de um jovem dominicano brasileiro, Frei Adriano Teixeira, no oitavário de preparação para a festa de Nossa Senhora do Livramento, santuário situado em Vilar (Terras do Bouro), que me convenceu, com a sua alegria e proximidade das pessoas, que aquilo que se dizia acerca de Deus, de Cristo, da missa, da confissão, de Nossa Senhora, dos santos, do Céu e do Inferno, estava muito mal contado. Quando ele me perguntou – devia ter uns 12 anos – o que eu queria ser quando fosse grande, respondi, sem hesitar, quero ser como você!

Fiquei para sempre com a convicção que, só mais tarde, pude formular: não se pode crer sem interpretar!

 

2. A entrada, em 1953 – tinha 19 anos – no noviciado do Convento dominicano de Nossa Senhora do Rosário, em Fátima, um convento internacional, testemunhou-me uma visão aberta da Ordem dos Pregadores e da Igreja. Estávamos bem informados das “condenações romanas” que atingiram dominicanos franceses, por causa das suas corajosas intervenções nos debates culturais, sociais e políticos e do seu contributo decisivo nos movimentos bíblico, litúrgico, teológico, pastoral, renovação da arte sacra, padres operários e “économie et humanisme”, tudo expresso em muitos livros e acompanhado pela publicação de várias revistas e pela famosa editorial Cerf, etc.

Entretanto, o meu irmão Frei Bernardo, que já era estudante entusiasmado pela filosofia no “Studium Sedes Sapientiae”, com sede no mesmo convento foi-me sempre encorajando com o seu constante e rápido humor diante das maiores dificuldades.

Comecei o estudo da história da filosofia pelos contemporâneos. Paul Denis, um dominicano belga, disse que era melhor partir da foz do rio filosófico para a nascente do que começar pelo passado ficando, como na missa, naquele tempo, sem confronto com o pensamento contemporâneo. Por esse centro de estudos fez passar grandes figuras da cultura internacional. Salazar mostrou de forma eficaz que ele tinha de abandonar o país. E assim aconteceu.

 

3. Quando fui para Salamanca, o curso oficial de teologia estava marcado pelos comentadores de S. Tomás de Aquino, mas aberto à nova exegese bíblica mediante os discípulos da Escola Bíblica de Jerusalém e ao acolhimento das correntes evolucionistas.

O clima político estava horrivelmente dominado pela propaganda da vitória do franquismo nos horrores da guerra civil. Tínhamos, no entanto, um “Padre Mestre” notável que resolveu organizar um curso paralelo de “aulas democráticas“ no qual os professores do curso institucional da Faculdade de Teologia não entravam. Era reserva das pessoas convidadas pelos estudantes – sobretudo de intelectuais leigos, escolhidos entre os “dissidentes” das correntes oficiais.

Isto mostrava que outra cultura era indispensável para elaborar uma teologia que assumisse as mudanças em curso, em todos os domínios. Tradição e inovação não podiam guerrear-se! Uma herança cultural só pode manter-se em mudança.

O clima de intolerância da Igreja franquista obrigava a enfrentar a questão da liberdade religiosa odiada por essa situação politico-eclesiástica. Vigorava a tese que não se podia dar a mesma oportunidade ao erro e à verdade!

 

4. Na primeira ida para Roma, e depois para Toulouse, já encontrei o Papa João XXIII em acção e preparando o Vaticano II. Por conselho de Giorgio La Pira, não perdi nenhuma dashumoradas e comoventes audiências papais aos peregrinos de todos os mundos. Não era um homem do poder. Era cristão de serviço a toda a humanidade, derrubando muros de preconceitos ideológicos e políticos.

Dediquei-me, de forma especial, a estudar a simbólica sacramental, como actividade de Jesus Cristo, nas celebrações da fé das comunidades cristãs, enquanto signos da graça divina no devir da natureza e da história. Procurei mostrar como para o teólogo Tomás de Aquino (1225-1274) e para o monge liturgista Odo Casel (1886-1948), Cristo é nosso contemporâneo, presente e actuante nos acontecimentos da actualidade e não apenas nas celebrações da Igreja.

Uma teologia cristã que não assume o devir, em acto, da natureza e da história resvala ou para um devaneio de subtilezas ou para uma “espiritualidade” de piedosas banalidades.

Foi por isso que me dediquei ao estudo da antropologia, da teologia das realidades terrestres e dos acontecimentos. Aí está a matriz e o horizonte da minha prática teológica ao longo dos anos. O modo da sua realização dependeu e depende sempre dos desafios e apelos que me foram e são dirigidos.

Tinha de dar razão da minha esperança no turbilhão da vida. A pergunta que me desafia é sempre esta: que sentido, que beleza, que sabedoria, que responsabilidade pode o encontro com Jesus Cristo trazer às pessoas, aos grupos, aos povos que desejam tornar este mundo a casa de todos, na promoção da união e da diferença!

Em Portugal, em África, na América Latina, fiz um percurso muito diferenciado de inculturação teológica. Nada aconteceu como uma carreira planeada por mim. Tudo acontece pelas solicitações, convites, desafios que pessoas, grupos e instituições me têm feito e fazem.

Confesso que o desafio que Jorge Wemans e António Marujo me dirigiram, em nome do jornal Público, por um ano, foi o que me possibilitou e obrigou, Domingo após Domingo, a fazer, em fragmentos, num espaço não confessional, a teologia livre e possível, ao longo de tantos anos!

Yves Congar – um amigo que tanto esperava de mim – fez um diagnóstico certeiro nos anos 30 do século passado: a uma religião sem mundo sucedeu um mundo sem religião! Procurei no Público, e na colecção Nova Consciência, do Círculo de Leitores, outra religião e outro mundo que gostem de se provocar mutuamente sem ressentimentos do passado que atrapalham o presente e o futuro.

O método de teologia africana narrativa que ajudei a praticar, durante anos, nas comunidades cristãs da diocese de Nampula, quando o espantoso D. Manuel Vieira Pinto animava uma rede de animadores leigos, deixou-me muitas saudades. Pude, num recente Congresso Internacional de Teologia em Luanda, mostrar que a teologia africana tem aí um modelo para não cair na teologia exclusivista da teologia das teses académicas, embora indispensável!

A teologia elaborada em confronto com as ciências humanas no Centro Bartolomeu de Las Casas (Cusco) e no Centro Pedro de Córdoba (em Santiago do Chile) marcaram-me para sempre.

Confesso que já me cansa a demora em alterar, radicalmente, a situação da mulher na Igreja. Não existem dois baptismos: um para homens e outro para mulheres. A discriminação das mulheres para os chamados ministérios ordenados é ridícula! A fidelidadeàs tradições na Igreja só pode ser vivida na infidelidadeàs rotinas inveteradas. Jesus não se cansou de insistir: disseram-vos, mas eu digo-vos!

Agora, a questão fundamental é a da antropologia. Kant já o sabia! Este mundo dá para todos ou não? Como abater os muros nacionalistas e imperiais? A revolução possibilitada pela inteligência artificial será para ajudar ou substituir os seres humanos? O ser humano foi o último a chegar na história da evolução. Diz-se que não será o último a despedir-se.

Há esperança: importa trabalhar na substituição da ideologia da rivalidade, pela verdade da união na diferença, a todos os níveis. É o prefácio à teologia prática da cooperação universal a partir do que localmente é possível e desejável fazer por cada um de nós!

O Papa Francisco reabriu o caminho que João XXIII tinha reaberto, quando estava a fazer a barba, a história do futuro. No meio das tensões presentes, precisamos de nos tornarmos os seus colaboradores. Não para o repetir, mas para que surjam novas soluções para os problemas com que a Igreja se debate. O resto virá por acréscimo!

Convento de S. Domingos, Lisboa, 12 de Fevereiro de 2019

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