AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Catolicismo na Alemanha: transparência e reforma

Catolicismo na Alemanha: transparência e reforma

by | 6 Jan 19 | Sete Partidas

Depois de tudo o que aqui se viveu em 2018, a Igreja Católica alemã só pode esperar que o ano que agora começou lhe permita navegar em águas mais serenas e deixar-lhe o sossego necessário para se dedicar às reformas internas que uma boa parte das dioceses já iniciou e outras têm ainda pela frente.

2018 foi, de facto, um ano agitado. O tema da pedofilia e dos abusos de violência sexualizada no seio do clero e das instituições eclesiais, que desde 2010 preocupa a Igreja na Alemanha, revelou-se em toda a sua gravidade, com a publicação de um estudo especializado que a própria Igreja encomendou a peritos de três universidades alemãs (Mannheim, Heidelberg e Giessen, e por isso conhecido pelo nome de MHG, as iniciais das universidades). Algumas das afirmações desse estudo perturbaram de modo especial os responsáveis da Igreja. Mais que os números. Por exemplo, a verificação de que, em grande percentagem, os padres responsáveis por crimes de pedoflia tinham atrás de si 10 a 15 anos de vida “normal” de padre levou os responsáveis pelo estudo a levantar a questão ou mesmo a concluir que há que procurar as causas dos abusos de carácter pedófilo e sexual para além da personalidade individual, que veria neles “apenas” um “pecado”, uma fraqueza. Há que ir até ao tutano do “sistema Igreja”, até às “estruturas e dinâmicas que favoreceram tais abusos”, os encobriram ou pelo menos não os evitaram como deviam. Há que interrogar-se sobre o sentido de formas de vida como o celibato e rever “afirmações ambivalentes” (MHG 11) da Igreja no campo da sexualidade em geral ou sobre a homosexualidade em especial. Há que questionar os modelos e as estruturas concretas do exercício do poder na Igreja. Estará encerrado este tema? O novo ano dirá.

Outro tema que ocupou a Igreja Católica na Alemanha ao longo do ano que passou foi a situação económica e financeira. Em algumas dioceses (Hamburgo ou Berlim, por exemplo), a gravidade da situação tem a ver com a baixa percentagem de católicos nessas regiões, com uma população de maioria protestante ou agnóstica, e a ninguém surpreende o facto de que uma diocese como Hamburgo tenha decidido encerrar uma série de escolas confessionais. Noutras, tidas como dioceses “ricas”, vieram a público falhas graves na administração financeira. Trata-se sempre de milhões de euros e os meios de comunicação não necessitam de exagerar ao falar de escândalo – os números falam por si. Ao mesmo tempo, todos os anos são milhares os católicos que riscam o seu nome das lista dos membros da Igreja (para não ter de pagar o “imposto eclesiástico” e/ou como forma de protesto). A Igreja alemã, no seu conjunto, continua a ser uma Igreja rica, mas a evolução demográfica e as incertezas financeiras provocam aos bispos algumas dores de cabeça. Uma boa parte deles vem reconhecendo publicamente a necessidade de entregar a gestão dos recursos financeiros a leigos competentes (alguns já o fizeram) e de apresentar ao Povo de Deus e à sociedade em geral orçamentos e balanços correctos e transparentes.

Finalmente um terceiro tema é a reforma e reestruturação pastoral das dioceses. A tão falada falta de padres (mas não só, também de diáconos e de leigos formados em teologia e especializados em pastoral, os “assistentes pastorais” ou “assistentes paroquiais”) está a obrigar a profundas reestruturações. A Diocese de Mainz (Mogúncia), por exemplo, actualmente com 198 padres no activo e cerca de 730 mil católicos registados como tal, irá dispor no ano de 2030 apenas de 104 padres para 650 mil católicos. Que fazer? Reduzir o número de paróquias (que na Alemanha são instituições de direito público, com personalidade jurídica, e não apenas comunidades pastorais) de forma a ajustá-lo ao número de padres? Como salvaguardar a proximidade pastoral da instituição em relação às pessoas? Estarão os padres em condições de assumir a direcção dessas paróquias “XXL”? Ou há, antes, que apostar em novas formas de presença da Igreja, valorizando os diferentes tipos de “lugares” eclesiais? No caso concreto de Mainz, o novo bispo, Peter Kohlgraf, convocou a sua diocese para a procura de um novo caminho pastoral, onde, mais do que de números ou de gestão de carências, se trata de uma atitude espiritual: “tornar-se uma Igreja de partilha”. Partilha dos recursos, dos carismas, das funções (mesmo da função de direcção das comunidades). Reflexões semelhantes estão a ser feitas um pouco por toda a Alemanha, de norte a sul.
Rigor na prevenção de abusos sexuais, transparência nas finanças, reformas internas nas estruturas da Igreja. O novo ano vai ser um ano de reformas: na condição de haver, neste “mar” em que a Igreja navega, ”águas serenas”…

Joaquim Nunes é assistente pastoral da Igreja Católica e vive em Offenbach (Alemanha)

 

Breves

Boas notícias

Outras margens

Cultura e artes

Bíblia para jovens, diálogo islamo-judaico, o herege, o monge e os ensaios da contista – novidades literárias até ao Natal

Ensaios, ficção e antologias

Bíblia para jovens, diálogo islamo-judaico, o herege, o monge e os ensaios da contista – novidades literárias até ao Natal novidade

A Bíblia de Lourenço adaptada a jovens, os 1400 anos das relações entre judeus e muçulmanos, um ensaio sobre o Cântico das Criaturas, não-ficção de Flannery O’Connor, uma antologia do “herege” Savonarola ou a autobiografia de Thomas Merton. Alguns dos títulos que, no âmbito religioso, da espiritualidade ou das questões sociais, várias editoras publicam até ao Natal

João da Cruz: poesia e mística

Ano Jubilar São João da Cruz (9)

João da Cruz: poesia e mística novidade

Até Dezembro decorre o ano jubilar de São João da Cruz, celebrando o terceiro centenário da canonização e os 100 anos da sua proclamação como Doutor da Igreja Católica. O jubileu tem como lema “A esperança alcança tanto quanto espera” e propõe itinerários de renovação espiritual e mística. A propósito do ano jubilar, o 7MARGENS propõe mensalmente, aos dias 13/14 (assinalando o dia da sua morte, a 14 de Dezembro de 1591), um conjunto de textos do padre carmelita e teólogo Armindo Vaz. 

Pessoas

Padre Telmo Ferraz: a sua universidade foi o Evangelho

[Entre Margens]

Padre Telmo Ferraz: a sua universidade foi o Evangelho novidade

O padre Telmo Ferraz [da Obra da Rua/Casa do Gaiato] nasceu na aldeia de Bruçó, Mogadouro. Pertencia à Diocese de Bragança e Miranda. Ordenou-se em 1951. Foi pároco em algumas paróquias da diocese, trabalhando na Barragem do Picote, onde desenvolveu uma pastoral humanitária junto dos operários.

Sete Partidas

As cápsulas

[Sete Partidas]

As cápsulas

No radio do carro tocava um CD da Rosalía e comecei a pensar no que já me disseram sobre o meu carro, pequeno e velho, dito em várias variações. Não levo a mal. É verdade, mas tem tudo o que preciso. Abrigo do sol, do frio, da chuva e da neve. Confiável. Riscado e muitas vezes sujo por fora, mas por dentro limpo e arrumado. Um pouco na ordem como valorizo as coisas na vida. Menos ostentação, mais conteúdo. [Texto de Inês Patrício, Berlim].

Visto e Ouvido

Agenda

[ai1ec view=”agenda”]

Ver todas as datas

Entre margens

Joana Lopes: 88 cravos à sua memória

[Entre Margens]

Joana Lopes: 88 cravos à sua memória

No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].

Guerras e mudanças de regime

[Entre Margens]

Guerras e mudanças de regime

Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber

[Entre Margens]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber

Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].

Fale connosco

Notícias Relacionadas

Notícias Relacionadas

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Papa está a recuperar bem e envia mensagem aos participantes sobre a Amoris Laetitia

Pós-operatório

Papa está a recuperar bem e envia mensagem aos participantes sobre a Amoris Laetitia novidade

A Sala de Imprensa da Santa Sé informou hoje, 14 de outubro, que o Papa realizou os exames de sangue e a radiografia ao tórax programados após a cirurgia a que foi submetido na noite de 13 de outubro para remover o lobo inferior do pulmão direito. A operação, que permitiu confirmar o diagnóstico de cancro, durou uma hora e meia e obrigou o Papa a permanecer no bloco operatório por cerca de três horas.

Leão XIV: “Por mais ferida que uma família possa estar, pode sempre crescer a partir do amor”

Dez anos depois da "Amoris laetitia"

Leão XIV: “Por mais ferida que uma família possa estar, pode sempre crescer a partir do amor” novidade

Não foi Leão XIV quem pronunciou a frase, mas foi ele quem a escreveu: “Por mais ferida que uma família possa estar, pode sempre crescer a partir do amor.” As palavras faziam parte da homilia preparada pelo Papa para a missa de encerramento do encontro internacional sobre os dez anos da Amoris laetitia, esta quarta-feira, 14, no Vaticano, mas acabaram por ser lidas pelo cardeal Luis Antonio Tagle.

O conflito israelo-palestiniano

[Entre Margens]

O conflito israelo-palestiniano novidade

Os trágicos acontecimentos que se sucederam a sete de outubro de 2023, que muitas instituições internacionais credíveis não temem chamar genocídio, provocaram em mim uma urgente necessidade de me informar melhor acerca do conflito israelo-palestiniano e das suas causas profundas. O que vim a descobrir alterou significativamente a minha posição face a este conflito. [Texto de Jorge Paulo].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.