Francisco, o Ecuménico (Um muçulmano na missa com o Papa)

Khalid Jamal (à esq.) e Pedro Gil, um muçulmano e um católico portugueses à entrada do Zayed Sports City, em Abu Dhabi. Foto © Pedro Gil.
No passado dia 04 de Fevereiro fez-se história: ocorreu a primeira visita de um Papa nos últimos 2019 anos a um país árabe do Golfo Pérsico. Daí o atrevimento de, em jeito elogioso, lhe atribuir o cognome de “o ecuménico”.
Para além estabelecimento de um caminho para a paz entre os povos que caracteriza a Igreja Católica, mas também, e em regra a maioria dos chefes de Estado, desta vez foi-se mais longe, designadamente através da criação de um documento subscrito pelo Vaticano e por Al-Azhar.
Quais são afinal, os impactos desta visita já histórica aos Emirados Árabes Unidos e o que muda?
Comecemos pela relação institucional ou de “alto nível” como dizem os anglo-saxónicos. Nunca antes se tinha visto a criação de um documento com um desiderato comum entre as entidades de grande relevo nas duas religiões de maior dimensão a nível mundial.
Por outro lado, é razoável admitir-se um reconhecimento e cada vez maior afirmação de Al-Azhar, como a referência no mundo islâmico, estando para este último como o Vaticano está para o catolicismo. Al-Azhar é considerada a elite do mundo islâmico académico sunita e é dotada de um discurso pacífico, profundamente marcado por uma visão ecuménica e moderada, orientada pelo seu grande imã, Xeque Ahmed Al Tayeb, que esteve com o Papa Francisco seis vezes, nos últimos tempos.
Não constitui pois, motivo de espanto que o Papa e o Xeque tenham mostrado certa cumplicidade no caloroso encontro em terras árabes e “neutras”. Acrescido do facto de o Papa Francisco ter afirmado, numa mensagem dirigida à população dos Emirados Árabes Unidos, que aquele país é uma “terra que procura ser um modelo de convivência, de fraternidade humana e de encontro entre as diferentes civilizações e culturas, onde muitos encontram um lugar seguro para trabalhar e viver livremente, no respeito das diversidades”.
Descendo à terra e a comprovar tal, num mesmo largo coabitam os fiéis católicos na catedral de Abu Dhabi, uma igreja copta ortodoxa e a mesquita que agora recebeu o nome de Maria, mãe de Jesus. Esse pequeno largo recebeu o nome de “jardim da tolerância” e assinala a visita conjunta do Papa Francisco e do grande imã, durante este ano que o Governo de Emirados Árabes Unidos significativamente proclamou “ano da tolerância”.
Para além das formalidades de recepção, a visita papal foi composta por quatro momentos mais marcantes, a saber:
1 – O encontro com o Conselho de Anciãos Muçulmanos – organização independente estabelecida em 2014, cujo objectivo é promover a paz em países de maioria islâmica, através da reunião de académicos, peritos e altos representantes, conhecidos pela sua sapiência, senso de justiça, independência e moderação. Pretende-se criar união e combater a fonte de conflito, entendida como a desfragmentação. É a primeira organização institucional que pretende extinguir o fogo que ameaça os valores humanitárias do Islão e os princípios do Islão, pondo fim ao sectarismo e à violência que assolam os muçulmanos há décadas.
2 – A visita à Sheik Zayed Mosque
3 – A reunião no memorial dos fundadores onde decorreu a assinatura do documento sobre a “Fraternidade Humana”; tópicos essenciais deste texto:
- As religiões convidam-nos a permanecer agregados às suas raízes e aos seus valores de paz
- A liberdade é um direito fundamental
- A justiça é o caminho para atingir uma vida digna
- O diálogo resolve vários problemas
- O diálogo entre fiéis significa estar juntos
- A protecção dos locais de adoração é garantida pelas religiões
- O terrorismo é um fenómeno causado por interpretações enviesadas dos textos sagrados
- A cidadania é baseada na igualdade de direitos e deveres
- As boas relações entre Ocidente e Oriente são indiscutivelmente necessárias
- O reconhecimento dos direitos das mulheres na educação e no trabalho
- A protecção dos direitos fundamentais da criança
- A protecção dos direitos dos idosos, vulneráveis
4 – Missa – para a esmagadora maioria dos católicos, foi a primeira manifestação publica de fé, o que denota um facto histórico. A cruz é ainda proibida publicamente e as manifestações de cristianismo são permitidas, embora devam ser discretas. Espera-se que após esta visita isso venha a mudar.
No plano da minha experiência pessoal, não quis deixar de estar presente num momento como este, que reputo de grande importância na renovação e, porque não, criação de um novo capítulo nas relações entre muçulmanos e católicos.
Esta experiência teve um gosto especial, dado que estava com o meu companheiro do programa [E Deus Criou o Mundo, na Antena 1], Pedro Gil, católico e com quem fiquei largas horas à conversa, e que inclusive assistiu a uma oração (na sala de oração de um centro comercial no Dubai), ficando assim a nutrir por ele uma grande admiração. Sempre que ele ia à missa, eu ia à mesquita (pela primeira vez a de esquina – costuma ser ao contrário) e, portanto, não posso deixar de assinalar que, à nossa maneira, tivemos um contributo para o dialogo inter-religioso que ali se fez por estes dias.
Foi indubitavelmente um momento de grande júbilo ver o estádio cheio de pessoas, algumas destas com grande sacrifício pessoal, de credos diferentes, vestes diferentes, formas de adoração diferentes e, portanto, hábitos diferentes. Mas estavam ali, após largas horas de espera comovidas em torno de um propósito igual: a paz.
Num mundo em que muitos dizem que as religiões tradicionais estão ultrapassadas, a aliança entre os fiéis é de grande importância, considerando que o crescimento da liberdade religiosa no Oriente, em especial no Médio Oriente, se impõe, como forma de viver em harmonia entre os povos.
Khalid Sacoor D. Jamal é vogal da direção da Comunidade Islâmica de Lisboa
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