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Caminhar, ao serviço da reinserção social de jovens

Caminhar, ao serviço da reinserção social de jovens

by | 12 Fev 19 | Boas Notícias, Cooperação e Solidariedade, Últimas

Imagens extraídas do documentário “Caminhar para crescer mentalmente”

É uma excelente ideia, aparentemente simples. Consiste em colocar as potencialidades de uma caminhada ao serviço de um propósito educativo de reinserção social de menores. Uma associação francesa – Seuil – tem-na concretizado com resultados exemplares. A um jovem numa situação de ruptura social, detido num estabelecimento prisional ou num centro educativo, obrigatoriamente com menos de 18 anos, é proposto que durante três meses faça uma caminhada de quase dois mil quilómetros com o propósito de se reconstruir e de se reinserir socialmente, explica Artur de Oliveira, membro da Seuil. Seguirá acompanhado por um adulto e, por conveniência prática, o percurso preferido será o do Caminho francês de Santiago. Desde logo, porque, ao fim do dia, é fácil encontrar um alojamento, o que não sucede se a caminhada se fizer por outros sítios. Mesmo se o que conta, diz Artur de Oliveira, é a superação quotidiana dos obstáculos que possam surgir. O que importa é “caminhar para ultrapassar um problema”, título de um livro sobre o trabalho da Seuil, ou “caminhar para crescer mentalmente”, título de um documentário que termina na Sé do Porto.

A possibilidade de desistência existe, mas a maioria dos jovens – cerca de 60 por cento – conclui a caminhada. As tendinites são, por vezes, uma contrariedade insuperável.

A Associação Seuil nasceu depois de Bernard Ollivier ter encontrado, em 1998, no Caminho de Santiago, dois jovens delinquentes belgas aos quais um juiz tinha proposto em alternativa: ou a caminhada ou a prisão. A felicidade que verificou existir nestes dois adolescentes ajudou Bernard Ollivier a perceber que a prisão não é a solução. A caminhada, em contrapartida, proporcionava-lhes o sentimento de liberdade, a felicidade de se superar e, sobretudo, a possibilidade de vários encontros. Após um período experimental, a associação Seuil foi oficialmente criada em 2003. Até 2018, organizou 250 caminhadas e tem, a partir de agora, capacidade para proporcionar quarenta caminhadas anuais.

A associação verifica que o seu método acabou por ser persuasivo, com a vantagem de ser menos oneroso do que os centros educativos fechados e mais pertinente do que a prisão. Em 2013, o estudo de um gabinete independente, ProEthique, chegou à conclusão que 95 por cento dos jovens que caminharam com a Seuil tornaram-se portadores de um projecto conducente à reinserção social. Um outro estudo, realizado pela administração penitenciária verifica, inversamente, que 75 por cento dos jovens que saem da prisão reincidem criminalmente. O investimento nas caminhadas é, portanto, bem mais rentável. Artur de Oliveira diz que cada caminhante, o jovem e quem o acompanha, dispõe de 14 euros por dia.

“Ninguém é prisioneiro das suas imagens, mas por vezes é efectivamente necessário romper com o seu meio para se poder reinventar”, afirmou o antropólogo David Le Breton, autor de vários livros sobre caminhar, no colóquio “A caminhada, uma proposta educativa de reinserção”, que a Associação Seuil organizou em Setembro de 2017 em Paris. As caminhadas oferecem, pois, uma oportunidade para que os jovens “se desfaçam das imagens que lhes foram coladas à pele”.

“Todos somos, evidentemente, prisioneiros das imagens que fazem de nós, seja para o melhor, seja para o pior”. E elas são sempre “para o pior”, no caso dos menores que fazem as caminhadas. Esse constrangimento vai-se desfazendo ao longo do caminho, que é aproveitado para mostrar outros sistemas de valores, outros sistemas de referências. Olhados como “malfeitores” e “delinquentes”, que às vezes julgam que têm de o ser para se impor no seio de outros “malfeitores” e “delinquentes”, os jovens revalorizam-se e conquistam a sua auto-estima ao demonstrarem inúmeras aptidões, reconhecidas pelo acompanhante ao longo do tempo de caminhada.

Durante meses, estes jovens vão ser instados a conversar, o que, para David Le Breton, significa que as suas palavras têm de ter em conta o rosto do outro, a voz do outro, o corpo do outro, a temporalidade do outro. A saída tem, além disso, o mérito de os retirar das ruminações quotidianas, que germinam quando se está no mesmo sítio.

Considerando que “as jovens gerações carecem enormemente de ‘espiritualidade’”, o antropólogo chama a atenção para a emergência dessa dimensão durante uma caminhada. Ao realizá-la, a espiritualidade que se sente é a de se considerar, de novo, “‘uma criatura’ imersa no cosmos, uma vez que o jovem, ao longo de meses, viverá a chuva, o sol, a chegada da noite, o que os jovens da cidade nunca viram. Vão ver o nascer do dia, o que os jovens da cidade também nunca viram, e vão ser confrontados com este género de experiências”. Para David Le Breton, quando por vezes se caminha à noite, cada um, seja crente, seja ateu, vai-se questionar sobre o seu lugar no universo, “o que é qualquer coisa de formidável para estes jovens”.

O trabalho da Associação Seuil dá boa conta dos caminhos que vale a pena percorrer, sendo certo que, como Artur Oliveira gosta de recordar, citando o poeta Antonio Machado, “caminhante, não há caminho, / faz-se o caminho ao andar.” 

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