A ADSE no seu labirinto
Teseu conseguiu atravessar todo o terrível labirinto sem ser destruído pelo Minotauro por se ter limitado a seguir o fio com que Ariadne tinha assinalado o percurso seguro. A evocação deste bem conhecido episódio da mitologia clássica bem pode justificar-se quando nos deparamos com a actual questão que envolve a ADSE, as entidades privadas fornecedoras de serviços e os responsáveis governamentais pela área da saúde, constituindo um labirinto tridimensional que o funcionário público, utente da e contribuinte para a ADSE, enfrenta com espanto e temor.
Vamos por partes: a ADSE ou Assistência na Doença aos Servidores do Estado (designação que suscita imediatas reservas, já que o funcionário público serve os melhores interesses da comunidade e não uma entidade superior, abstrata e dele desligada) foi fundada ainda antes do Sistema Nacional de Saúde, como modo de atribuir um bónus de segurança e um benefício adicional a uma classe sacrificada, em geral mal-amada e sobretudo mal paga. No seu formato original, o utente adquiria direitos em saúde sem contribuir financeiramente para a despesa: recorria a prestadores de serviços (médicos, clínicas, hospitais) convencionados e o respectivo custo era debitado ao Ministério da Saúde.
Quando o Sistema Nacional de Saúde (SNS) foi criado, poderia a ADSE ter sido encerrada, já que o SNS fora concebido como prestador universal e gratuito de cuidados. Mas tal não aconteceu, por motivos de ordem política (seria uma medida altamente impopular) e de mero realismo (não haveria capacidade para atender, no SNS, as centenas de milhares de pacientes que para ele seriam desviados). Passou então a ADSE a ser um dos subsistemas de saúde que, de modo algo paradoxal, convivem, gozando de privilégios consideráveis, com o SNS, que atende a maioria dos cidadãos portugueses, com a boa qualidade geralmente reconhecida mas com dificuldades de acesso e listas de espera excessivas. Ou seja, o ideal que presidiu à criação do SNS ficou desde logo prejudicado por considerações de um sadio realismo – nem universal, nem gratuito, pela adopção de taxas moderadoras.
A ADSE evoluiu também e os utentes passaram a descontar, nos seus vencimentos, uma taxa que foi gradualmente aumentada e se encontra hoje nos 3,5%, incidindo igualmente nas pensões. Desta forma, a ADSE é auto-sustentável e nada custa ao erário nacional, que recorreu até ao superavit de anos transactos, desviando para outros sectores da área da saúde os fundos que deveriam ter ficado como reserva e garantia de sustentabilidade futura.
E é precisamente esta a preocupação da hora actual: dado o crescente custo de medicamentos, próteses e tecnologias da saúde, a margem entre ingresso e despesa vai-se estreitando e, a continuar assim, poderá ter de se enfrentar uma situação deficitária.
Os utentes querem continuar a ter os cuidados de que necessitam e não podem nem querem aumentar a sua contribuição; os privados não querem subsidiar a saúde e desejam ter lucros; o Estado exige preços justos. Parece, a quem não tem conhecimentos de economia e apela ao bom senso, que as três posições são razoáveis e dignas de respeito e que a situação pode e deve ser resolvida através de negociação límpida e honesta. Para isso, porém, é necessário que impere o bom senso e a correcta avaliação da situação real, sem animosidades nem procura de bodes expiatórios, sem atitudes de confronto inspiradas por uma ideologia que atribua estatuto moral ou qualificação ética a uma das partes em causa, pelo simples facto de se tratar de uma entidade pública ou privada.
Em suma, esperemos que surja o benfazejo fio de Ariadne que nos permita atravessar o labirinto, em boa saúde.
Porto, 25 de Fevereiro de 2019
Walter Osswald é médico, ex-membro do Conselho Nacional de Ética e actual conselheiro do Instituto de Bioética da Universidade Católica.
[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]
Breves
José Allamano e a Consolata
Exposição fotográfica revela 100 anos de história das missões
Por ocasião dos 100 anos da morte de São José Allamano, assinalados este ano, o Consolata Museu, em Fátima, tem patente ao público uma exposição dedicada a este fundador dos dois institutos missionários. [Texto de Juliana Batista].
Relatório Centro Rossing
Jerusalém: ataques violentos a cristãos quase duplicaram em dois anos
Os ataques violentos a cristãos em Israel e em Jerusalém oriental ocupada estão a tornar-se cada vez mais frequentes, tendo quase duplicado nos dois últimos anos, de acordo com organizações israelitas citadas pelo órgão público de rádio alemão Deutsche Welle (DW).
Apelo ao Governo
Cristãos do Bangladesh querem feriado no Domingo de Páscoa e maior representação na vida pública
Um cordão humano com mais de 100 pessoas exigiu, durante toda a manhã de dia 31 de março, em frente ao Clube Nacional de Imprensa, em Daca, que o Domingo de Páscoa fosse reconhecido pelo Governo do Bangladesh como feriado nacional. A concentração organizada pela Associação Cristã de Bangladesh reivindicou também lugares na vida pública reservados à representação dos cristãos e de outras minorias.
Sexta-feira Santa
Papa carrega a cruz e meditações da Via Sacra dão voz ao sofrimento dos povos do Médio Oriente
O Papa presidirá a todas as 14 estações da Via Sacra no Coliseu de Roma, carregando a cruz pessoalmente durante toda a liturgia, que será marcada pelas meditações escritas pelo frei franciscano Francesco Patton, ex-Custódio da Terra Santa (2016-2025) e que atualmente vive no santuário do Memorial de Moisés no Monte Nebo, na Jordânia.
Boas notícias
Apelo de Metz
Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana
Os representantes das principais tradições religiosas presentes em França comprometeram-se esta segunda-feira, na cidade de Metz, a aprofundar o diálogo entre si, a educar as novas gerações para o conhecimento mútuo e a permanecerem unidos na promoção da justiça e da paz.
É notícia
Entre margens
[Entre Margens]
Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur novidade
Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].
[Entre Margens]
Jesus salva-nos de nós mesmos
Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].
[Entre Margens]
Estafetas no fio da navalha
Há uma situação que, para mim, começa a ser difícil de explicar sem recorrer à ironia: centenas de estafetas têm conseguido, nos tribunais portugueses, o reconhecimento do seu vínculo laboral com as plataformas digitais. Ou seja, a Justiça diz, em determinadas decisões, que ali existe uma relação de trabalho. [Texto de Marcel Borges, presidente da Associação dos Imigrantes e Trabalhadores por Aplicação]
Cultura e artes
Rostos e Rumos
Adelino Ascenso, o padre missionário que quase foi monge budista novidade
Uma rara experiência durante a juventude levou-o a sítios inóspitos como Katmandu, no Nepal. Na América Latina acompanhou na selva amazónica um pistoleiro durante dez dias. O missionário Adelino Ascenso, que viveu 12 anos no Japão, é o último entrevistado do programa Rostos e Rumos, parceria da TSF e do 7MARGENS.
Livro em cinco línguas
“Diário Privado do Papa Francisco” revelado em novembro
Em italiano, francês, espanhol, inglês e português: é nestas cinco línguas, para 94 países, que será editado a 24 de novembro o diário do Papa Francisco, anotado pelo cardeal Víctor Manuel Fernández, pela Editora do Vaticano.
7MARGENS é co-organizador
Como os média religiosos viveram a nova liberdade de imprensa pós-25 de Abril
“Liberdade de imprensa: revolução e democracia em Portugal” é o tema do colóquio que, no dia 22 de Outubro, colocará em debate, na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, investigadores e protagonistas do período pós-25 de Abril de 1974, para aprofundar questões relacionadas com a imprensa – incluindo a religiosa – durante a revolução democrática.
NAZA estreou nos cinemas
O filme israelita que documenta o genocídio em Gaza
Os realizadores Yuval Abraham e Rachel Szor trazem-nos um filme, NAZA, que é um objeto de cinema que ultrapassa os limites do ecrã e nos coloca frente a frente com a máquina de morte que Israel montou para destruir Gaza – cometendo genocídio.
Sete Partidas
7Partidas
Vinte e cinco anos depois
Em 2001, vivíamos em San Francisco. Naquela segunda-feira, dia 11 de Setembro, fomos acordados pelo meu sogro, que nos ligava da Alemanha para avisar que os EUA estavam a ser atacados. Em San Francisco era ainda madrugada; em Nova Iorque passava das nove da manhã, e as duas torres já estavam a arder. [Texto de Helena Araújo].
Visto e Ouvido
Igreja tem política de “tolerância zero” aos abusos sexuais, mas ainda está em “processo de purificação”
Agenda
[ai1ec view=”agenda”]












![Iconografias [s]em reserva[s] no Machado de Castro museu nacional de machado de castro foto mnmc facebook (1200 × 612 px)](https://setemargens.com/wp-content/uploads/2022/04/museu-nacional-de-machado-de-castro-foto-mnmc-facebook-1200-×-612-px-480x245.png)





