Acordo China-Santa Sé: modelo vietnamita (e português?)

| 25 Set 18 | Estado, Política e Religiões, Igreja Católica, Liberdade religiosa

O que foi assinado sábado passado, dia 22 de Setembro, “não foi uma concordata entre a Santa Sé e a China: é muito mais”. A afirmação é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e director da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha, num artigo publicado no La Repubblica, logo no domingo (e traduzido para português na Unisinos).

Apesar de ainda não se conhecerem em detalhe os termos do acordo, sabe-se que ele permite ao Papa e ao Vaticano interferir na escolha dos bispos e, ao mesmo tempo, integrar numa única hierarquia católica oito bispos que tinham sido ordenados à revelia da Santa Sé e que, por esse facto, estavam excomungados.

Em vez de uma concordata, continua Melloni, a diplomacia vaticana, desde o Papa João XXIII até agora, “aprendeu que, com qualquer instrumento diplomático, pode dar muito”, quando activa a comunhão das Igrejas e a comunhão dos bispos. “E o ‘acordo secreto’ entre a China e a Santa Sé é um grande serviço à comunhão. A questão da eleição dos bispos que criou não duas Igrejas, mas sim três hierarquias: uma que agrada o governo, por ter surgido a partir de uma escolha interna ao país; a outra em comunhão com Roma; e uma terceira cada vez mais vasta com a qual se convergia”, acrescenta o historiador.

Luis Badilla, no Il Sismografo, retoma a ideia do desconhecimento do texto, para citar uma frase do Papa na sua visita à Lituânia, também no sábado: “‘Não é possível caminhar sozinhos. Às vezes é necessário arriscar juntos’: disse o Papa Francisco aos jovens lituanos no Encontro de Vilnius, no sábado. Palavras úteis para ler o acordo entre a China e o Vaticano.”

O padre português Peter Stilwell, reitor da Universidade de São José, em Macau (a única universidade católica na China continental), concedeu uma curta entrevista ao DN, na qual considera que o acordo “é um grande desafio” à Igreja e aos católicos chineses, “que é o de criar condições para as duas comunidades, a comunidade clandestina e da Igreja patriótica, como é chamada, viverem e trabalharem juntas. Têm sido anos de separação e não será fácil a relação entre as duas partes.”

Stilwell acrescenta que, mesmo apesar da oposição de alguns sectores – com o cardeal Zen, arcebispo emérito de Hong Kong à cabeça – ele é positivo: “Há que abrir espaço para que as duas comunidades se possam encontrar. É um trabalho de longo prazo, que se vai fazendo. Será positivo para a Igreja na China se, decorrente do acordo, for possível que os bispos se possam deslocar para os encontros internacionais, em que bispos de todo o mundo se encontram e trocam impressões. E será positivo até mesmo para a China em geral.”

Aliás, esta notícia surge num momento em que se verifica uma vaga de atentados à liberdade religiosa na China, quer contra cristãos quer contra muçulmanos.

O modelo seguido para o acordo, escreve ainda Massimo Introvigne no Bitter Winter– um observatório da liberdade religiosa na China – parece seguir o modelo vietnamita: aqui, o acordo estabelecido em 1996 dá ao Vaticano a faculdade de indicar três nomes de candidatos para bispos em cada diocese que necessite e as autoridades do país escolhem um de entre eles, que será ordenado bispo. Introvigne faz notar que este acordo com o Vietname foi estabelecido quando Pietro Parolin, o agora secretário de Estado do Vaticano, era subsecretário para as relações com os Estados – e, nessa qualidade, foi ele que assinou o acordo com o Vietname.

Pode acrescentar-se que, nessa medida, o acordo está também próximo do modelo que vigorava em Portugal, durante o regime ditatorial do Estado Novo (1928/33-1974). No seu blogue Estado e Igreja, o investigador Luís Salgado de Matos vai ainda mais atrás e propõe o modelo do Padroado português do Oriente como referência para o acordo agora estabelecido.

Dois outros padres que trabalham em Macau fizeram também declarações ao DN: “A minha alegria, e a parte positiva de se estar a dar passinhos para trás e para diante, é parecer-me que há um esforço mais direto de perceber que em termos simples um patriota pode ser católico e um católico pode ser patriota – e aqui parece-me estar o busílis da questão que aos poucos se está a procurar resolver”, diz Luís Sequeira, padre jesuíta.

Joey Mandia, director do jornal O Clarim, afirma entretanto que “a experiência de como Igreja e Estado se relacionam em Macau pode ser um ponto de referência para a Igreja no Continente”. Lê-se ainda no jornal: “Mandia é cauteloso nas palavras ao referir que ‘toda a gente concorda que haver maior liberdade religiosa na China é algo desejável’ e que ‘é expectável que o actual acordo provisório assinado entre a China e a Santa Sé possa trazer isso’. No entanto, o religioso compreende que ‘haja quem obviamente duvide se isto vai resultar ou não.”

Finalmente, no JN, o padre Fernando Calado Rodrigues recorda a chamada “Ostpolitik”: “Este termo vem do alemão e significa ‘a política do Leste’. Foi utilizado para classificar os esforços do chanceler da então República Federal da Alemanha, Willy Brandt, para, nos anos 60/70, conseguir um melhor relacionamento com uma Europa do Leste dominada pelo comunismo.” E passou a designar também a política de aproximação diplomática aos países comunistas da então Cortina de Ferro, protagonizada pelos papas João XXIII, Paulo VI e João Paulo II, e pelo cardeal Agostino Casaroli.

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