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Universidade do Minho concede “honoris causa” ao “maior teólogo” português

| 09/01/2019

Universidade do Minho concede “honoris causa” ao “maior teólogo” português

by | 9 Jan 19 | Pessoas

 

“O maior teólogo” da Igreja e uma “voz grande da cultura”, justifica Moisés Lemos Martins. Um reconhecimento de um itinerário centrado numa “teologia da periferia”, como diz frei Bento. Ou um nome “marcante na produção teológica em Portugal” e “um dos pilares da sociedade portuguesa”, como dizia há poucos meses, sobre Bento Domingues, o agora arcebispo Tolentino Mendonça.

 

Frei Bento Domingues, frade dominicano, teólogo, colunista do jornal Público e autor do ensaio A Religião dos Portugueses, será doutorado honoris causa pela Universidade do Minho, no próximo dia 15 de Fevereiro, soube o 7MARGENS. Frei Bento é, “por certo, o maior teólogo” da Igreja Católica em Portugal e é uma “voz grande da cultura portuguesa”, diz Moisés Lemos Martins, director do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade do Minho (UM), justificando a proposta de doutoramento.

A sugestão partiu do departamento de Ciências da Comunicação e do CECS. O doutoramento, acrescenta o professor catedrático da UM, será feito no âmbito dos Estudos Culturais. “O que me admira é terem tido esta ideia, que acolhi com agrado e reconhecimento, mas não era coisa que me passasse pela cabeça. A Universidade não tem obrigação nenhuma, esta escolha surpreendeu-me. Podia dizer que não queria, mas também seria ser exibicionista”, diz frei Bento ao 7MARGENS, comentando a informação, recebida nos primeiros dias de Janeiro.

Moisés Lemos Martins, que será o padrinho do doutoramento, acrescenta que “a presença permanente de frei Bento no espaço público, atravessando a segunda metade do século XX e já este século”, destaca-o como “homem da Igreja e da cultura, debatendo a condição humana e os desafios que se lhe colocam”. Ele tem sempre “uma palavra de esperança sobre a humanidade, num tempo em que muito se desespera, porque são muitos os desesperados e porque os desequilíbrios sociais não têm a solução que se exige”, acrescenta. Além disso, as suas intervenções, escritas ou faladas, colocam “em confronto permanente o Evangelho com os problemas do mundo e da humanidade”.

“Faço uma teologia da periferia”, diz Bento Domingues. “A única forma de interpretar [esta decisão] é que o estatuto da minha teologia foi sempre marginal. Sempre trabalhei em teologia nas formas mais variadas, mas não dentro de instituições católicas universitárias em Portugal. E a Universidade do Minho também não é confessional.

Prática teológica e inteligência da fé

Frei Bento começou por decidir não fazer doutoramento. “Depois andei em ziguezagues”, conta: ainda na década de 1990, chegou a ser convidado pelo então reitor da Universidade Católica Portuguesa (UCP), padre Isidro Alves, para professor da respectiva Faculdade de Teologia e membro da equipa da revista teológica Communio. “Pedi-lhe garantia de que teria plena liberdade de ensino e ele respondeu que não o poderia fazer. Por isso, disse-lhe que não ia. Se fosse, corria o risco de perder um amigo e isso eu não queria.”

“O problema da prática teológica é que, se ela não é feita em liberdade, é um serviço à instituição e não uma inteligência da fé”, diz frei Bento. Apesar disso, e mesmo não tendo estado nunca ligado a uma instituição de forma muito dilatada no tempo, Bento Domingues acabou por ter uma intensa actividade ligada a universidades: leccionou vários anos no Instituto Bartolomeu de las Casas (Peru), na Universidade de São Tomás (Colômbia) e no Instituto Pedro de Córdoba (Chile), além de ter orientado cursos de animação e formação de missionários (Angola e Moçambique).

Em Portugal, o percurso foi idêntico: “Tive sempre relação com universidades, mas as não-confessionais.” Além de centenas de conferências, em muitos sítios, “quase sempre da ordem do acontecimento e não do institucional”, o frade dominicano esteve, por exemplo, nos conselhos gerais do Instituto de Ciências Sociais, de Lisboa e da Universidade do Porto (neste caso, entre 2014-18) e, na década de 1990, foi o responsável, com Alfredo Teixeira, pela criação do curso de Ciências das Religiões, da Universidade Lusófona, que entretanto abandonou. “A ideia era fazer teologia num espaço laico, mas era difícil: como não oferecia carreira, só podia ser para quem pudesse pagar e para pessoas reformadas ou desocupadas.”

Frei Bento tem insistido na ideia de que, desde 1910 e da instauração da República, a teologia tinha desaparecido das universidades públicas portuguesas, com o fim do curso que existia em Coimbra. A situação só ficou remediada com a criação da faculdade na UCP e a criação do Instituto Superior de Estudos Teológicos, ambos no final dos anos 1960. A UCP “nasceu contra o ISET”, que tinha sido criado por várias ordens religiosas e onde frei Bento também se empenhou bastante. Mas a Católica “também evoluiu” nos últimos anos, considera.

Por isso, este doutoramento surge como “um reconhecimento de um itinerário, de um trabalho que não teve espaço nas universidades públicas nem na Católica. Por isso aceitei. E é também uma forma de dizer que não devemos desistir.”

Bento Domingues: Um “magistério na cultura portuguesa – no campo religioso e fora dele”, dizia Tolentino Mendonça, em Junho (foto Francisco Marujo)

Um “gesto seminal”, um “grande autor”

Para Bento Domingues, a melhor definição do seu modo de fazer teologia foi feita por José Tolentino Mendonça, actual arcebispo e bibliotecário do Vaticano, na apresentação da edição revista e actualizada do seu livro A Religião dos Portugueses, editada em Maio de 2018 pela Temas e Debates (e co-organizada pelo autor deste texto). “Ele entendeu que eu nunca quis desistir da prática teológica e que isso para mim foi o essencial, incluindo com as minhas crónicas no Público ou a direcção da colecção Nova Consciência, no Círculo de Leitores”, publicada na década de 1990.

Nessa intervenção, Tolentino Mendonça considerou A Religião dos Portugueses como um livro “absolutamente marcante na produção teológica em Portugal” e que traduz um “gesto seminal” e uma “mudança de respiração” na teologia. E apontou o seu autor como “um grande artesão da teologia”, que “mostra uma juventude e um saber fazer verdadeiramente incontornável”. E acrescentou: “Temos uma grande dívida para com frei Bento Domingues, no sentido da inquietação e da incitação que ele nos faz ao pensamento.”

Ao mesmo tempo, disse que Bento Domingues tem a “capacidade de penetrar [e ser um] poder de referenciação”, com um “magistério na cultura portuguesa – no campo religioso e fora dele” que evidencia “como, através do pensamento e através da palavra, frei Bento é capaz de mostrar que aquilo que define os portugueses é o coração”. Enfim, considerou o frade dominicano como “um grande autor” e “um dos pilares da sociedade portuguesa”.

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