Diário de viagem VI: “Fechamos para rezar” – o calvário de sexta-feira
Foram-se as sombras da noite dissipando e o céu começou a sorrir ao mundo a promessa da luz do sol que se havia de levantar lentamente e acordar quem dormia. Não a nós, que nos pusemos a pé quando toda a Dakhla ainda estava a meio sono.
Uma das coisas que a mim mais me custa, nesta viagem, é termos de nos levantar sempre tão cedo. Hoje eram 5h30 (hora portuguesa) e já os pneus dos nossos carros beijavam o asfalto ferido de solidão. Isto de nos levantarmos de madrugada pareceu-me que não custa tanto aos meus companheiros de viagem como a mim, para quem isto é um muito que me custa sempre tanto. Tem a ver com o meu metabolismo.
Mas, para compensar, houve uma coisa que custou mais a todos e menos a mim, já experimentado nestas andanças: atravessar a fronteira do Sara Ocidental com a Mauritânia.

Um STOP que durou sete horas… Foto: direitos reservados
Os nossos companheiros leigos nem imaginavam a confusão e as dificuldades que iriam encontrar! Ser inocente é sempre uma vantagem e é exactamente por isso que as crianças são sempre mais felizes do que os adultos.
Da primeira vez que por aqui passei cheguei às 15h30 e só saí às 23h30. Foram oito horas de verdadeiro suplício. Agora temos o amigo Arturo Mohamed, mauritano de gema, que a troco de uns euros nos facilita a vida. Mesmo assim, chegamos às 10h30 portuguesas e só saímos às 17h30.
Só para que os ilustres e prezados leitores deste diário tenham uma ideia, quando chegámos à fronteira havia mais de 200 camiões que formavam um comboio interminável à espera da sua vez. A maior parte já estava desde o dia anterior. Os motoristas são autênticos mártires neste caos. E nós uns corajosos ao passar a chamada “terra de ninguém”, que tem tanto de surreal como de assustador ao verem-se dezenas de carcaças de carros destruídos e ao sabermos que a zona está minada desde a guerra da Frente Polisário. É aqui que carros, camiões e até jipes se contorcem e gemem a dificuldade de vencer um terreno que não é longo mas verdadeiramente difícil.
E quando já estávamos numa grande fila para tirarmos o visto, com a barriga a dar horas e nauseados pelo excessivo tempo de espera, fomos informados que, por causa da oração, os serviços iam encerrar meia hora. Incrível!
Fizemos um silêncio sepulcral e resignámo-nos. Passado algum tempo, a porta voltou a fechar-se: tinha falhado a internet e teríamos de esperar por tempo indeterminado. Impressionante! Na Europa era simplesmente impensável uma coisa destas.
Foi nesta altura que apareceu o amigo Tito, de punhos cerrados, berrando a indignação e vociferando um veemente protesto por tão grande atraso, embora ressalvando o profundo respeito pelas coisas religiosas.
O Fernando Lino ficou tão impressionado com tudo isto que desabafou: “A próxima fronteira que atravessarei será a do Porto de Leixōes a meter um carro num contentor. Por estrada, para a Guiné, jamais”.
Essas palavras de uma pessoa tão sábia e sensata fizeram-me interrogar se o Almiro e os companheiros padres são uns grandes aventureiros ou uns meros tolos!
O que valeu ao grupo foi que, durante todo este tempo de espera, o Luís Pedro parecia uma metralhadora a disparar rajadas de palavras engraçadas que a todos faziam rir. Até os tantos que ali estavam e não entendiam o português arreganhavam a tacha mostrando dentes brancos em rostos tão escuros. Quanto a mim, passei melhor o tempo porque aproveitei a longa e desesperante espera para alinhavar este diário.
Para terminar a aventura desta travessia, direi que nesta fronteira o que mais impressiona são os rostos queimados – mais pela miséria do que pelo sol –, sentados numa resiliência budista e enfrentando a indiferença e o desrespeito, quase sarcásticos, das autoridades pelo tempo de espera a que obrigam gente cansada e alguma até doente.
Uma outra coisa que logo se repara: nesta fronteira quase não se veem mulheres. Aqui, o reino é dos homens com turbantes e vestimentas tipo paramentos de padre. Uma realidade nova e uma cultura diferente para quem não está habituado. Não me admira que fique muito impressionado, e até meio assustado, quem por aqui passa pela primeira vez.
Saídos deste filme, arrancamos e logo fomos comer qualquer coisa (não tínhamos ainda almoçado) para depois nos precipitarmos a devorar quilómetros. Mas não há desgraça que venha só: não é que, com tanto deserto à volta, estacionámos os carros dentro do perímetro de um quartel? E quando já tínhamos a improvisada mesa montada e mordíamos os alimentos avidamente, apareceram dois soldados. Um, de arma em riste, olhou-nos de esguelha e com cara de poucos amigos; o outro, mandou-nos sair dali, justificando-se com ordens superiores.
Ainda implorámos compreensão dizendo que estivemos sete horas retidos na fronteira e prometemos comer apressadamente, mas de nada valeu. Metemo-nos nos carros tão apressados quanto incomodados e rumámos para Nuaquexote, mas depressa fomos travados por uma infinidade de buracos num troço em obras que nunca mais acabava. De noite e com uma estrada assim, não foi rápida nem fácil esta viagem da fronteira à capital. Foi por isso que chegámos tardiamente e esgotados.
Mas é preciso ter calma e não dar o corpo pela alma, como canta o Pedro Abrunhosa.
Afinal é sexta feira, dia em que Cristo foi crucificado. A nós coube-nos melhor sorte, pois só tivemos que levar a nossa cruz ao calvário, sendo cireneus uns dos outros.
Padre Almiro Mendes
(O 7MARGENS acompanha desde domingo passado, 3 de fevereiro, através de um diário de viagem, a expedição do padre Almiro Mendes e dos seus sete companheiros rumo à Guiné-Bissau para entregar um jipe, uma pick-up e outras ajudas a várias missões católicas e organizações não-governamentais)
Breves
José Allamano e a Consolata
Exposição fotográfica revela 100 anos de história das missões
Por ocasião dos 100 anos da morte de São José Allamano, assinalados este ano, o Consolata Museu, em Fátima, tem patente ao público uma exposição dedicada a este fundador dos dois institutos missionários. [Texto de Juliana Batista].
Relatório Centro Rossing
Jerusalém: ataques violentos a cristãos quase duplicaram em dois anos
Os ataques violentos a cristãos em Israel e em Jerusalém oriental ocupada estão a tornar-se cada vez mais frequentes, tendo quase duplicado nos dois últimos anos, de acordo com organizações israelitas citadas pelo órgão público de rádio alemão Deutsche Welle (DW).
Apelo ao Governo
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Um cordão humano com mais de 100 pessoas exigiu, durante toda a manhã de dia 31 de março, em frente ao Clube Nacional de Imprensa, em Daca, que o Domingo de Páscoa fosse reconhecido pelo Governo do Bangladesh como feriado nacional. A concentração organizada pela Associação Cristã de Bangladesh reivindicou também lugares na vida pública reservados à representação dos cristãos e de outras minorias.
Sexta-feira Santa
Papa carrega a cruz e meditações da Via Sacra dão voz ao sofrimento dos povos do Médio Oriente
O Papa presidirá a todas as 14 estações da Via Sacra no Coliseu de Roma, carregando a cruz pessoalmente durante toda a liturgia, que será marcada pelas meditações escritas pelo frei franciscano Francesco Patton, ex-Custódio da Terra Santa (2016-2025) e que atualmente vive no santuário do Memorial de Moisés no Monte Nebo, na Jordânia.
Boas notícias
Apelo de Metz
Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana
Os representantes das principais tradições religiosas presentes em França comprometeram-se esta segunda-feira, na cidade de Metz, a aprofundar o diálogo entre si, a educar as novas gerações para o conhecimento mútuo e a permanecerem unidos na promoção da justiça e da paz.
Outras margens
Cultura e artes
Livro em cinco línguas
“Diário Privado do Papa Francisco” revelado em novembro
Em italiano, francês, espanhol, inglês e português: é nestas cinco línguas, para 94 países, que será editado a 24 de novembro o diário do Papa Francisco, anotado pelo cardeal Víctor Manuel Fernández, pela Editora do Vaticano.
7MARGENS é co-organizador
Como os média religiosos viveram a nova liberdade de imprensa pós-25 de Abril
“Liberdade de imprensa: revolução e democracia em Portugal” é o tema do colóquio que, no dia 22 de Outubro, colocará em debate, na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, investigadores e protagonistas do período pós-25 de Abril de 1974, para aprofundar questões relacionadas com a imprensa – incluindo a religiosa – durante a revolução democrática.
NAZA estreou nos cinemas
O filme israelita que documenta o genocídio em Gaza
Os realizadores Yuval Abraham e Rachel Szor trazem-nos um filme, NAZA, que é um objeto de cinema que ultrapassa os limites do ecrã e nos coloca frente a frente com a máquina de morte que Israel montou para destruir Gaza – cometendo genocídio.
In Memoriam
Walter Osswald (1928-2026): um homem sólido, um grande coração
Há vidas tão belas, tão ricas e tão bem preenchidas que a sua morte, apesar e além da profunda tristeza que suscita, consegue ao mesmo tempo segregar o perfume de um profundo êxito. É o caso de Walter Osswald [cientista e professor universitário, que morreu no passado dia 22 de setembro, dois dias depois de ter completado 98 anos].
Pessoas
Memória
Enzo Bianchi e a fraternidade possível: uma experiência pessoal e ecuménica novidade
Tive o privilégio de conhecer Enzo Bianchi (1943-2026) e de conviver com ele durante um período decisivo dos meus primeiros anos como pastor, na Suíça francófona. A minha história com Bose começou muito antes de a comunidade por ele fundada se tornar aquele extraordinário lugar de encontro entre cristãos que viria a ser conhecido muito para além das fronteiras da Itália. [Texto de Joel Lourenço Pinto].
Sete Partidas
7Partidas
Vinte e cinco anos depois
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Visto e Ouvido
Agenda
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Entre margens
[Entre Margens]
Joana Lopes: 88 cravos à sua memória novidade
No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].
[Entre Margens]
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[Entre Margens]
A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber
Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].



















