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Ana Cordovil

Um lugar para todos

| 05/03/2019

Um lugar para todos

by | 5 Mar 19 | Entre Margens, Últimas

O serviço educativo do Museu Nacional de Arte Antiga, criou na década de 1960 oficinas para crianças e jovens com atividades artísticas diversas “que ligassem as mãos e o pensamento num só ato”. Parte destas oficinas decorriam nos jardins do Museu. Este movimento inovador em Portugal foi impulsionado pelo diretor do museu, João Couto (1932/1962), com uma equipa que abraçou a ideia.

 

Era uma manhã de sábado, não havia escola nesse dia, o que já em si era magnífico, pois a escola não me encantava.

Entrava-se pelos grandes portões do jardim e ali tudo era mágico! Um jardim sobre o Tejo, com estátuas que “brincavam” com grandes árvores e umas mesas compriiiii…das com tintas e pincéis muito bem arrumados e uma imensidão de folhas de papel para serem pintadas. Parecia um sonho!

Eu, com os meus 10 anos, sentia-me como num conto de fadas.

A luz abria o olhar, o acolhimento era como um abraço, a quantidade de miúdos transbordando de alegria era uma constante, e imaginem… podíamos pintar livremente(!). Com algumas regras, só para podermos gozar a responsabilidade e a liberdade de nos divertirmos a pintar ou simplesmente a passear entre esta animação.

O pincel escolhe a tinta e procura a folha. O traço não dança como eu queria, mas encanto-me com a descoberta das cores que se misturam e não me importo com a tinta que cai na roupa, ou fora da folha. É a criação, que por vezes me surpreende, que me encanta.

Lembro-me bem da voz clara e animada da Madalena Cabral (*) que parecia estar perto de todos e de cada um. Alguns dos meninos pareciam pobres e diferentes daqueles que eu estava habituada a encontrar, mas era junto desses que me lembro mais da Madalena.

Mais tarde, já em 1972, participei ainda nos ateliers de verão nos jardins do Museu e fui percebendo melhor a importância que a arte podia ter na minha vida. Não sendo boa aluna no ensino regular, ali eu sabia que era feliz!

E foi essa sensação de felicidade e de liberdade responsável – que radica num acolhimento onde há um lugar para todos – que mais me prendeu. Hoje, recordar essas manhãs de sonho é fonte de inspiração para acolher a todos!

(*)  Madalena Cabral foi a principal responsável pelo serviço educativo do Museu Nacional de Arte Antiga, quer pela sua criação em 1953 quer na sua constante recriação de projetos durante mais de quatro décadas; a citação no início, entre aspas, é também dela.

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