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Alfredo Teixeira: “O problema das igrejas é a transmissão”

| 24/10/2018

Alfredo Teixeira: “O problema das igrejas é a transmissão”

by | 24 Out 18 | Destaques, Igreja Católica, Sociedade

Alfredo Teixeira: “O fenómeno mais importante é o da explosão da diferença.”

 

“Devemos dizer, ao mesmo tempo, que a religião sofre erosão e que ela se está a reconfigurar.” A poucos dias do final, no próximo domingo, do Sínodo dos Bispos sobre os jovens, a fé e o discernimento vocacional, o antropólogo e sociólogo Alfredo Teixeira analisa nesta entrevista o que se passa com a religiosidade das novas gerações. Há um problema sério na capacidade de transmissão da fé, mais do que na comunicação, diz. E há mudanças que se podem ver, mas elas são, muitas vezes, em sentidos opostos e quase contraditórios: “O mais errado é pensar que podemos resolver a nossa leitura da sociedade a partir de um dinamismo único. E, sobretudo em termos religiosos, precisamos constantemente desse olhar em diferentes escalas porque, de outra forma, teremos um olhar muito simplificado sobre a realidade.”

 

P. – Pode fazer-se um retrato da realidade religiosa a nível mundial?

ALFREDO TEIXEIRA – É muito difícil falar dessa categoria a partir do mundo: os contrastes na distribuição da experiência do religioso, quanto às idades e gerações, podem ser muito grandes, no que diz respeito aos diferentes contextos geográficos e culturais. Em todo o caso, o que se pode dizer se o mundo fosse visto da lua? De forma geral, as sociedades do Norte apresentam uma população religiosa envelhecida. Em particular, o Atlântico Norte tem um problema no que diz respeito à renovação geracional das linhagens crentes…

Incluindo Estados Unidos e Canadá?

– Sim, ainda que de modo diferente. Esse fenómeno vai-se alastrando, consoante temos sociedades que, sob o ponto de vista da estrutura religiosa, têm alguma semelhança com a realidade europeia e norte-americana. Na América Latina, ela não é tão expressiva no que respeita à diminuição dos indicadores religiosos nos mais jovens. Mas, se fizermos segmentos em relação ao que conhecíamos no passado, observamos uma diminuição das mulheres – um indicador importante na transmissão e reprodução do religioso.

Por outro lado, nessas sociedades, o fenómeno mais importante é o da explosão da diferença: em muitos casos, eram sociedades onde uma havia uma confissão com um peso muito forte – por exemplo, a Igreja Católica – e agora beneficiam de uma extraordinária explosão da diversificação religiosa. Portanto, o problema geracional não é o fenómeno mais importante.

O que destacaria então?

– Para compreendermos hoje a religião, temos de fazer um jogo de escalas: quando observamos a religião a partir do telescópio, vemos uma imagem que pode esconder as dinâmicas de transformação. Nesse grande retrato, nessa leitura macro do fenómeno, cruzam-se duas coisas que não conseguimos distinguir muito bem: por um lado, uma continuidade, uma sobrevivência do que vem de trás, que em alguns casos tem ainda uma clara preponderância; por outro, zonas de transformação que, quando olhamos sob o ponto de vista macro-social, não têm ainda a expressão que lhes daria importância sociológica.

Nestes dois olhares, é preciso compreender a dinâmica, o que está a acontecer: se é uma erosão do que vem do passado e uma afirmação de novas formas de vida social e de articulação da experiência social do religioso. Às vezes, apenas com esse olhar macro é muito difícil ter uma leitura fina desta pergunta simples: estamos simplesmente numa linha de erosão ou ela coincide também com zonas de reconfiguração?

Esta dúvida não se esclarece facilmente quando se olham apenas os grandes números, quando se faz um retrato macro da humanidade em termos religiosos…

E se fecharmos a lente sobre a Europa?…

– Eu diria que aí temos uma maior aproximação…

Mas ainda com realidades muito diferenciadas. 

– Com realidades diferenciadas mas, obviamente, podemos estabelecer correlações mais facilmente do que diversificando os contextos geográficos. A Europa fez uma trajectória social que identificamos com a modernidade histórica que, em alguns dos seus traços – industrialização, urbanização, individualização dos estilos de vida, modificação dos modelos familiares e, dentro disso, modelos de conjugalidade; enfim, zonas importantíssimas de construção da sociedade – têm uma maior comparabilidade dentro do espaço europeu.

Na Europa e em Portugal, que tendências principais se verificam? Os jovens afastam-se mais do religioso? A religião é vivida de outra maneira, mantendo as pessoas alguma forma de adesão? O que se passa?

– Passam-se muitas coisas ao mesmo tempo. Antes de mais,…

E o que acontece às gerações mais novas?

Nesse sentido, em termos globais, podemos dizer que as novas gerações tendem a apresentar indicadores de pertença religiosa mais fragilizados do que as gerações anteriores. Porque, mesmo quando tiveram uma trajectória de socialização religiosa, esta tem muitas dificuldades em articular-se com a sua inscrição numa vida de jovem adulto, ela própria cheia de incertezas e um terreno muito difícil que não se articula facilmente com os modelos de integração religiosa recebidos.

Por outro lado, temos uma zona crescente de adolescentes que já não conhece nenhum processo de socialização religiosa primária – ou seja, identificar os ritos, ter uma presença em qualquer vivência comunitária… Começa a verificar-se uma ampla iliteracia. Já não é uma questão de fé ou crença, mas de iliteracia, da incapacidade de reconhecer essa herança como cultura. Isso é óbvio nas sociedades do Atlântico Norte, juntando a América do Norte e a Europa Ocidental – com algumas diferenças aqui e na Europa de Leste, em que há casos de secularização mais aguda…

Mas onde também há casos como o da Rússia, onde a Igreja Ortodoxa diz que tem crescido imenso o número de estruturas, paróquias e pessoas que a procuram…

– São zonas em reestruturação social. Tenho dificuldade em avaliar esses fenómenos, porque não são sociedades que tenham estabilizado num modelo social, antes sofreram um forte processo de desestruturação e de desagregação, depois da sua des-sovietização, e com realidades bastante diferentes: em alguns países do antigo bloco de Leste, é onde encontramos  algumas das sociedades com o nível mais baixo de indicadores religiosos.

A República Checa, por exemplo…

– Sim, e alguns países dos Balcãs. Podemos encontrar na região uma geografia onde há uma forte presença religiosa, como a Polónia, mas também sociedades que sofreram um processo muito agudo de secularização e onde a religião, na vida das pessoas, no seu quotidiano, tem já uma presença muito débil. Há outras sociedades que é difícil compreender para onde estão a ir, porque estão ainda num processo de reestruturação.

Usando esse conceito de Atlântico Norte de forma um pouco mais ampla, encontramos esse fenómeno de erosão geracional. O principal problema das igrejas – que ainda representam a grande maioria das organizações religiosas, na Europa – é muito mais a transmissão do que a comunicação, aproveitando para fazer esta distinção que Régis Debray enfatiza e que me parece útil neste contexto: a transmissão é o que permite à instituição vencer o tempo, enquanto a comunicação lhe permite vencer o espaço.

A mensagem das igrejas, de forma geral, está hoje em todo o lado, elas acompanharam a transformação de todas as médiasferas. Basta pensar no interesse que [o Papa] Pio XII teve pela televisão e a sua aparição televisiva; ou no interesse que [o Papa] João Paulo II teve pela comunicação massmediática e o fotojornalismo, que tiveram um papel na construção da sua própria imagem – João Paulo II foi o que foi porque se construiu também uma imagem massmediática e, em muitos casos, essa imagem construída teve como agentes os jornalistas e não agentes eclesiásticos.

Esse problema da transmissão significa, como diz Armando Matteo, que estamos perante “a primeira geração incrédula”?

– Não, essa é uma maneira de falar que não me entusiasma, porque supõe aquilo que não conseguimos encontrar hoje, que é a homogeneidade geracional. E supõe uma certa estabilidade geracional, que não acontece. Tenho duas filhas, com 18 e 13 anos e, em alguns aspectos fundamentais, eu quase diria que elas são de gerações diferentes: no plano da conectividade, o estar ligado, que caracteriza muito essas gerações, já o fazem de forma diferente.

Desconfio de macro-conceitos, como o de falar de uma “geração incrédula” – é uma forma de falar que constrói uma máscara sobre a realidade, bastante mais diferenciada. Se podemos falar desta dificuldade de transmissão, que é um facto, também podemos observar o fenómeno a partir de outro olhar.

E que seria?…

– O sociólogo Yves Lambert deu muita atenção a esta questão, desde que há os inquéritos internacionais, por exemplo sobre os valores europeus. Ele leu esses programas, nas décadas de 1980 e 1990, e fez uma observação curiosa: se juntarmos os valores que representam o primado da tradição, onde normalmente os valores religiosos são mais preponderantes, encontramos essa aglomeração presente muito mais na geração dos mais velhos do que na geração dos mais novos; se reunirmos, num outro grande conjunto, valores mais associados à liberdade individual, à emancipação do indivíduo, esses valores vão estar mais presentes na geração dos mais jovens.

Mas, quando observamos as curvas, podemos ter uma leitura um pouco diferente: a curva do grupo dos valores tradicionais, não pára de decrescer entre os mais velhos, conduzindo até a uma certa aproximação geracional, que é uma das características da sociedade contemporânea – as gerações estão mais diferenciadas e, ao mesmo tempo, mais próximas, porque há, em alguns casos, zonas de vivência social onde as pessoas se aproximam mais.

E o que acontece quando observamos as gerações mais novas?

– Quando observamos os mais jovens, cresce a curva dos valores tradicionais, embora seja menos representativa. O que quer dizer que falar apenas de uma geração incrédula esconde o facto de que, quando observamos as zonas de vitalidade do religioso em diferentes texturas, vemos uma coisa que se calhar não esperaríamos: elas são fortemente juvenis. E isto tanto no campo judaico ou islâmico como cristão.

Alguma da reconfiguração religiosa que aparece com mais vitalidade – não estou a valorar, mas a observar a afirmação na esfera pública – são muito mais juvenis, sob o ponto de vista da sua composição, do que as formas mais tradicionais e próximas daquilo que Grace Davis chamou a religião “vicária” na Europa.

O que significa?

– É a religião que um grupo faz em nome de todos, como a identidade paroquial como religião pública: uns quantos que se juntam e fazem alguma coisa e a sociedade tem a percepção de que eles reproduzem isso em nome de todos, mas tal não corresponde a uma vinculação numa vivência religiosa efectiva; ou seja, há uma dimensão simbólica que permanece, mas não nessa zona.

As dificuldades de transmissão afectam sobretudo as formas religiosas recebidas. Mas, quando olhamos as formas criativas do religioso – ou seja, o que está a mudar –, ele pode ter uma forte composição juvenil.

Podemos dizer Thomas Luckmann e outros sociólogos que tinham razão quando diziam que a religião não se foi embora, mas mudou de lugar?

– Isso foi sempre assim. Mas esse discurso não pode iludir que algumas delas sofreram uma grande erosão e que isso tem consequências sociais.

Quando os bispos portugueses estiveram todos em Roma, em 2015, o Papa disse-lhes que há uma “debandada” dos jovens, usando a chave da erosão. Mas, perante esta realidade diversificada e complexa do fenómeno religioso, sobretudo nas camadas mais jovens, o que faz a Igreja? Está a resolver a questão da transmissão, limita-se à comunicação?… 

– A transmissão é um problema da sociedade, não é da Igreja: é da Igreja porque é da sociedade: a escola tem um problema de transmissão. O problema da escola, hoje, é não conseguir ser uma instituição de transmissão e ser uma instituição de gestão da aprendizagem, que são coisas diferentes. Essa é uma dificuldade da nossa cultura. Neste contexto, temos de distinguir aquilo que possa ser um discurso analítico do discurso dirigido ao interior das comunidades para as mobilizar – são coisas diferentes.

Compreendo perfeitamente que o Papa diga que há uma debandada dos jovens da Igreja: se entramos numa assembleia dominical, na maior parte delas, eu só vejo grisalhos. No entanto, se eu sair desse espaço e entrar noutros espaços interiores à paróquia – o pequeno grupo, a pequena iniciativa –, o retrato já é diferente. Uma das coisas que me impressionou no estudo de 2011-12 [Identidades Religiosas em Portugal], que coordenei, foi observar o grande contraste que existe, no universo dos católicos, entre os que classificámos como observantes (aqueles cuja inscrição, no espaço católico, se circunscreve à prática ritual regular) e o universo dos que chamámos militantes (aqueles que, para além da prática regular, acrescentam também a inscrição em determinado grupo ou serviço nas comunidades).

E que contraste é esse?

– Enquanto o universo dos católicos observantes era fortemente envelhecido – a presença nele, dos mais jovens, era muito diminuta –, quando observávamos o grupo dos militantes, a composição já era muito diferente: os mais jovens estão muito mais representados no universo dos católicos militantes. O que quer dizer que os mais jovens, no contexto religioso, se estão lá, é para estar vinculados a alguma coisa de que façam parte.

Um tipo de experiência religiosa que passe apenas pela observância, pela manutenção de um conjunto de ritos tem, em particular nos mais jovens, uma eficácia muito menor. Até acontece, com muita frequência – para quem como eu, fez etnografia paroquial –, que temos jovens integrados em dinâmicas paroquiais a que não corresponde de todo uma inscrição nas acções comunitárias de tipo ritual. Simplesmente, em alguns casos, eles não estão – estão numa coisa e não estão na outra.

Há aí uma dimensão que diz respeito à sociabilidade religiosa que, obviamente, tem um forte impacto nas culturas juvenis: a experiência do ser-se membro de uma comunidade religiosa, não integrado. Nessa medida, tendo em conta aquilo que define as próprias sociabilidades juvenis, obviamente que os grupos religiosos poderão estar em maus lençóis na sua comunicação com os mais jovens.

O que pode um jovem esperar do Sínodo dos Bispos que agora termina?

– Tudo depende da forma como a sinodalidade é construída.

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