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Cantos de sereia

| 31/01/2019

Cantos de sereia

by | 31 Jan 19 | Entre Margens, Últimas

Confesso que fiquei impressionado com a retórica brilhante do discurso de posse do novo ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil, do governo de Bolsonaro, Ernesto Araújo ( (www.youtube.com/watch?time_continue= 15&v=-u8bkWLPq-g), um diplomata de carreira. Impressionado também com o conteúdo do discurso, onde abundam afirmações que rareiam nas sociedades secularistas e relativistas de hoje.

O discurso começa com a citação da frase de São João: «A Verdade vos libertará». Nele se afirma que «a Verdade está nos que seguiram a bandeira dos seus reis e dos seus santos». É citada, como marca da riqueza do património cultural brasileiro, a tradução da Avé-Maria em língua tupi, de São José Anchieta. Como exemplos emblemáticos de quem luta por grandes ideais, são referidos D. Quixote e o nosso D. Sebastião (que – afirma Ernesto Araújo – foi derrotado em Alcácer-Quibir, mas de quem ainda nos lembramos, quando ninguém se lembra dos que ficam confortavelmente em sua casa). Ao enunciar as linhas que guiarão a política externa brasileira, faz-se alusão ao direito a nascer como o primeiro dos direitos humanos (na verdade – afirmo eu –, o mais agredido e que hoje é esquecido em quase todas as instâncias nacionais e internacionais).

No entanto, …

Pode ser tentador para muitos esquecer outras facetas do discurso, que poderemos considerar radicalmente contrárias à ética cristã. Há que resistir aos cantos de sereia de uma retórica que corre o risco de usar «o Santo Nome de Deus em vão».

Refiro-me a um nacionalismo que já foi qualificado como «nacionalismo de exclusão», que se afirma pela hostilidade ao outro e ao estrangeiro e que contraria o valor supremo da fraternidade universal. É neste valor da fraternidade universal que reside a novidade cristã, por contraste com o paganismo da Antiguidade, que encarava os deuses e a religião como instrumentos ao serviço da cidade ou do império.

O discurso enaltece, como exemplos de afirmação dos valores nacionais, as políticas dos atuais governos dos Estados Unidos, de Israel, da Hungria, da Polónia e da Itália. Estes últimos têm-se distinguido, precisamente, pela recusa, em nome dos pretensos valores nacionais, de acolher refugiados que fogem da guerra ou náufragos em perigo de vida, negando, desse modo, um elementar dever cristão e humanitário de proteção da vida e da dignidade humanas.

Afirma Ernesto Araújo que, mais do que a xenofobia (o ódio ao estrangeiro), são ameaças no mundo atual a oikofobia (o ódio à nossa própria casa) e a teofobia (o ódio a Deus). Mas a xenofobia é um sintoma da recusa do Deus revelado em Jesus Cristo (e já no Antigo Testamento), que considera dirigido a Si o tratamento que é dado ao estrangeiro.

É o que tem dito insistentemente o Papa Francisco. No seu recente discurso ao corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé, salientou a importância das organizações internacionais (sem esquecer os seus defeitos) e os perigos do ressurgimento do nacionalismo (que não confundiu com a valorização das identidades nacionais). Relembrou o período entre as duas guerras mundiais, onde as tendências nacionalistas minaram as primeiras organizações internacionais, com trágicas consequências. E quando – acrescento eu – também alguns cristãos não resistiram aos cantos de sereia do «nacionalismo de exclusão».

Pedro Vaz Patto é presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica

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