Cantos de sereia
Confesso que fiquei impressionado com a retórica brilhante do discurso de posse do novo ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil, do governo de Bolsonaro, Ernesto Araújo ( (www.youtube.com/watch?time_continue= 15&v=-u8bkWLPq-g), um diplomata de carreira. Impressionado também com o conteúdo do discurso, onde abundam afirmações que rareiam nas sociedades secularistas e relativistas de hoje.
O discurso começa com a citação da frase de São João: «A Verdade vos libertará». Nele se afirma que «a Verdade está nos que seguiram a bandeira dos seus reis e dos seus santos». É citada, como marca da riqueza do património cultural brasileiro, a tradução da Avé-Maria em língua tupi, de São José Anchieta. Como exemplos emblemáticos de quem luta por grandes ideais, são referidos D. Quixote e o nosso D. Sebastião (que – afirma Ernesto Araújo – foi derrotado em Alcácer-Quibir, mas de quem ainda nos lembramos, quando ninguém se lembra dos que ficam confortavelmente em sua casa). Ao enunciar as linhas que guiarão a política externa brasileira, faz-se alusão ao direito a nascer como o primeiro dos direitos humanos (na verdade – afirmo eu –, o mais agredido e que hoje é esquecido em quase todas as instâncias nacionais e internacionais).
No entanto, …
Pode ser tentador para muitos esquecer outras facetas do discurso, que poderemos considerar radicalmente contrárias à ética cristã. Há que resistir aos cantos de sereia de uma retórica que corre o risco de usar «o Santo Nome de Deus em vão».
Refiro-me a um nacionalismo que já foi qualificado como «nacionalismo de exclusão», que se afirma pela hostilidade ao outro e ao estrangeiro e que contraria o valor supremo da fraternidade universal. É neste valor da fraternidade universal que reside a novidade cristã, por contraste com o paganismo da Antiguidade, que encarava os deuses e a religião como instrumentos ao serviço da cidade ou do império.
O discurso enaltece, como exemplos de afirmação dos valores nacionais, as políticas dos atuais governos dos Estados Unidos, de Israel, da Hungria, da Polónia e da Itália. Estes últimos têm-se distinguido, precisamente, pela recusa, em nome dos pretensos valores nacionais, de acolher refugiados que fogem da guerra ou náufragos em perigo de vida, negando, desse modo, um elementar dever cristão e humanitário de proteção da vida e da dignidade humanas.
Afirma Ernesto Araújo que, mais do que a xenofobia (o ódio ao estrangeiro), são ameaças no mundo atual a oikofobia (o ódio à nossa própria casa) e a teofobia (o ódio a Deus). Mas a xenofobia é um sintoma da recusa do Deus revelado em Jesus Cristo (e já no Antigo Testamento), que considera dirigido a Si o tratamento que é dado ao estrangeiro.
É o que tem dito insistentemente o Papa Francisco. No seu recente discurso ao corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé, salientou a importância das organizações internacionais (sem esquecer os seus defeitos) e os perigos do ressurgimento do nacionalismo (que não confundiu com a valorização das identidades nacionais). Relembrou o período entre as duas guerras mundiais, onde as tendências nacionalistas minaram as primeiras organizações internacionais, com trágicas consequências. E quando – acrescento eu – também alguns cristãos não resistiram aos cantos de sereia do «nacionalismo de exclusão».
Pedro Vaz Patto é presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica
Breves
José Allamano e a Consolata
Exposição fotográfica revela 100 anos de história das missões
Por ocasião dos 100 anos da morte de São José Allamano, assinalados este ano, o Consolata Museu, em Fátima, tem patente ao público uma exposição dedicada a este fundador dos dois institutos missionários. [Texto de Juliana Batista].
Relatório Centro Rossing
Jerusalém: ataques violentos a cristãos quase duplicaram em dois anos
Os ataques violentos a cristãos em Israel e em Jerusalém oriental ocupada estão a tornar-se cada vez mais frequentes, tendo quase duplicado nos dois últimos anos, de acordo com organizações israelitas citadas pelo órgão público de rádio alemão Deutsche Welle (DW).
Apelo ao Governo
Cristãos do Bangladesh querem feriado no Domingo de Páscoa e maior representação na vida pública
Um cordão humano com mais de 100 pessoas exigiu, durante toda a manhã de dia 31 de março, em frente ao Clube Nacional de Imprensa, em Daca, que o Domingo de Páscoa fosse reconhecido pelo Governo do Bangladesh como feriado nacional. A concentração organizada pela Associação Cristã de Bangladesh reivindicou também lugares na vida pública reservados à representação dos cristãos e de outras minorias.
Sexta-feira Santa
Papa carrega a cruz e meditações da Via Sacra dão voz ao sofrimento dos povos do Médio Oriente
O Papa presidirá a todas as 14 estações da Via Sacra no Coliseu de Roma, carregando a cruz pessoalmente durante toda a liturgia, que será marcada pelas meditações escritas pelo frei franciscano Francesco Patton, ex-Custódio da Terra Santa (2016-2025) e que atualmente vive no santuário do Memorial de Moisés no Monte Nebo, na Jordânia.
Boas notícias
Apelo de Metz
Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana
Os representantes das principais tradições religiosas presentes em França comprometeram-se esta segunda-feira, na cidade de Metz, a aprofundar o diálogo entre si, a educar as novas gerações para o conhecimento mútuo e a permanecerem unidos na promoção da justiça e da paz.
Outras margens
Cultura e artes
Livro em cinco línguas
“Diário Privado do Papa Francisco” revelado em novembro
Em italiano, francês, espanhol, inglês e português: é nestas cinco línguas, para 94 países, que será editado a 24 de novembro o diário do Papa Francisco, anotado pelo cardeal Víctor Manuel Fernández, pela Editora do Vaticano.
7MARGENS é co-organizador
Como os média religiosos viveram a nova liberdade de imprensa pós-25 de Abril
“Liberdade de imprensa: revolução e democracia em Portugal” é o tema do colóquio que, no dia 22 de Outubro, colocará em debate, na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, investigadores e protagonistas do período pós-25 de Abril de 1974, para aprofundar questões relacionadas com a imprensa – incluindo a religiosa – durante a revolução democrática.
NAZA estreou nos cinemas
O filme israelita que documenta o genocídio em Gaza
Os realizadores Yuval Abraham e Rachel Szor trazem-nos um filme, NAZA, que é um objeto de cinema que ultrapassa os limites do ecrã e nos coloca frente a frente com a máquina de morte que Israel montou para destruir Gaza – cometendo genocídio.
In Memoriam
Walter Osswald (1928-2026): um homem sólido, um grande coração
Há vidas tão belas, tão ricas e tão bem preenchidas que a sua morte, apesar e além da profunda tristeza que suscita, consegue ao mesmo tempo segregar o perfume de um profundo êxito. É o caso de Walter Osswald [cientista e professor universitário, que morreu no passado dia 22 de setembro, dois dias depois de ter completado 98 anos].
Pessoas
Memória
Enzo Bianchi e a fraternidade possível: uma experiência pessoal e ecuménica novidade
Tive o privilégio de conhecer Enzo Bianchi (1943-2026) e de conviver com ele durante um período decisivo dos meus primeiros anos como pastor, na Suíça francófona. A minha história com Bose começou muito antes de a comunidade por ele fundada se tornar aquele extraordinário lugar de encontro entre cristãos que viria a ser conhecido muito para além das fronteiras da Itália. [Texto de Joel Lourenço Pinto].
Sete Partidas
7Partidas
Vinte e cinco anos depois
Em 2001, vivíamos em San Francisco. Naquela segunda-feira, dia 11 de Setembro, fomos acordados pelo meu sogro, que nos ligava da Alemanha para avisar que os EUA estavam a ser atacados. Em San Francisco era ainda madrugada; em Nova Iorque passava das nove da manhã, e as duas torres já estavam a arder. [Texto de Helena Araújo].
Visto e Ouvido
Agenda
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Entre margens
[Entre Margens]
Joana Lopes: 88 cravos à sua memória novidade
No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].
[Entre Margens]
Guerras e mudanças de regime
Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].
[Entre Margens]
A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber
Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].















