E a nossa hospitalidade para com a Casa Comum?
Hospitalidade, saber ser acolhido e acolher, foi o tema reflectido nas orações da noite e nas reflexões dos jovens em pequenos grupos, ao longo do encontro europeu anual da “Peregrinação da Confiança” em Madrid; essa foi a proposta da comunidade de Taizé para o tema a ser desenvolvido nos encontros durante o ano de 2019.
Num encontro europeu de Taizé este tema, por força das circunstâncias, toca especialmente todos os participantes atendendo ao facto de estarmos fora das nossas cidades: dão-nos de comer e um sítio para dormir, integrados em paróquias ou famílias de acolhimento que nos recebem. A hospitalidade não foi para nós só uma ideia ou um conceito abstracto; foi, sim, a realidade do dia-a-dia.
Além do importante tema dos migrantes e refugiados que chegam às nossas fronteiras, há outro tipo de hospitalidade que, como seguidores de Jesus, devemos ter em conta:
A hospitalidade na nossa Casa Comum, o planeta.
A maior convergência entre todas as religiões é a fé no Deus Criador. Em Genésis 1, lemos que Deus criou a luz, o céu, a Terra, os astros, as aves, os seres vivos que andam na água e na terra, animais domésticos e selvagens. Depois de cada criação, há uma conclusão: ‘Deus viu que era bom’. O ser humano foi a última criação de Deus, acolhido, assim, por tudo quanto já existia.
Nos dias que correm, subsistem, então, as seguintes perguntas:
Estaremos a saber ser acolhidos na nossa casa comum?
Mostramos gratidão por tudo o que Deus gratuitamente nos ofereceu e continua a oferecer-nos?
Estaremos a ser fiéis a Deus se descuidamos algo que ‘Deus viu que era bom’ ?
Hoje em dia, os desafios apresentados aos cristãos são vastos e não se restringem à Criação per si mas ao mais importante mandamento dado por Jesus: ‘Ama o teu próximo como a ti mesmo’.
O actual consumo excessivo de produtos e bens, iniciado com a Revolução Industrial (um pequeno momento nos 4,5 mil milhões de anos da Terra), tem emitido GEE (gases com efeito de estufa) para a atmosfera, aquecendo o ar.
A nossa constante resposta positiva à produção industrial, consumindo desmesuradamente, levou a um insuportável aquecimento do planeta. Na Bíblia, por todo o Antigo e Novo Testamento vemos a sacralidade da água: ela faz crescer os nossos alimentos e purifica. Com o aquecimento do planeta, a água evapora, há menos chuva e/ou fenómenos climáticos atípicos, impedindo ou tornando muito difícil o crescimento dos alimentos. Nos sítios mais quentes, onde já se morre de pobreza, irá acontecer um genocídio climático. Os efeitos já se sentiram este ano e a reciclagem não é solução.
A busca do meu prazer mundano em alimentos e produtos não pode, como seguidor(a) de Cristo, sobrepor-se a salvar uma vida, várias vidas, seja aqui, seja na África do Sul, seja agora ou daqui a poucos anos. Por isso, temos de ser exemplos para os outros de sensibilização e mudança de hábitos: não comprando coisas novas mas usadas (desse modo não gastando novos recursos e não emitindo novos GEE), reduzindo para mais de metade o consumo de carne, optarmos pela reparação ou reutilização de bens, usando sacos de pano em vez de plástico ou papel, deixando o carro mais vezes em casa ou optando pelo uso de carros que têm como fonte energias renováveis.
Como cristãos, somos chamados a escolher de que lado estamos perante tudo o que irá acontecer: do lado dos que salvaram vidas ou dos que contribuíram para o genocídio climático?
António Guterres avisa que temos apenas dois anos para mudar de hábitos antes que tudo ocorra.
Por isso, devemos explorar o tema da hospitalidade na casa comum, ecologia, sustentabilidade e, principalmente, ser um testemunho vivo desta mudança por Cristo e em Cristo no amor pelo próximo.
Neste encontro de Taizé, houve pequenas reflexões e orações sobre a ecologia.
Um aspecto positivo do encontro é que houve reciclagem das garrafas de plástico e as refeições quentes disponibilizadas para todos os participantes foram veganas. Há outros aspectos a melhorar nesta ou em iniciativas de dimensão similar no seio da Igreja de Cristo: neste encontro, tanto quanto se viu, os recipientes de plástico das refeições quentes não foram reciclados. Tal equivale a 56 mil embalagens de plástico no lixo comum. Segundo as informações que chegam a nós através dos media, essas embalagens vão parar aos oceanos transformando-se em microplásticos ingeridos pelo peixe que comemos, ou queimados emitindo GEE, ou acabarão em lixeiras onde ficarão 250 a 400 anos a degradarem-se e impedindo que outros resíduos domésticos – que rapidamente se degradariam – consigam decompor-se.
Aprendamos juntos, aproveitando a vantagem desta sociedade de informação em que vivemos, a ser acolhidos na Criação de Deus, da qual fazemos parte, vivendo esta hospitalidade como símbolo da fidelidade e do amor de Deus por nós.
Catarina Sá Couto é missionária leiga da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, “jovem líder” da Carta da Terra e representante em Portugal dos Green Anglicans – Rede Lusófona
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