Gandhi gostava de Cristo, mas menos dos cristãos
Gandhi é um dos três nomes incontornáveis na galeria dos construtores da paz e da luta contra as injustiças sociais no século XX, juntamente com o americano Martin Luther King e o africano Nelson Mandela.
O Expresso teve a feliz ideia de publicar “A Minha Vida e as Minhas Experiências com a Verdade”, um livro de memórias do dirigente indiano e pai da independência da Índia, a jóia da coroa do Império Britânico, que acabou de redigir na prisão. Nele, Gandhi expressa amplamente as suas impressões não só sobre o seu percurso pessoal e história familiar, mas também dúvidas, temores e reflexões filosóficas e religiosas sobre a vida, a sociedade, a política e a cultura. Trata-se dum interessante relato do seu processo de auto-realização enquanto ser humano.
Gandhi começa por se apresentar como crente em Deus, mas é sincero ao ponto de assumir que anda à Sua procura: “ainda não O encontrei, mas continuo a procurá-Lo”. E mantém uma notável atitude de humildade ao declarar: “rezo para que ninguém considere definitivas as opiniões deste livro”.
A persistência e o empenho no caminho da verdade na perspectiva hinduísta (Satyagraha)acabou por conduzi-lo à prática do Ahimsa, ou princípio da não-violência, que o tornou conhecido em todo o mundo e que o orientou nas lutas políticas, tanto na África do Sul, onde apelou à desobediência civil em massa, a fim de defender os direitos dos indianos, como, mais tarde, de volta à India, tanto na luta por reformas político-sociais que promovessem a dignidade e as condições de vida das populações, como na luta pela independência em relação à Grã-Bretanha através de métodos pacíficos.
É curioso ler como aconteceu o contacto do jovem Gandhi com o protestantismo em Inglaterra e na África do Sul, e entender como era complicado a um hindu apreender a doutrina cristã, embora o Sermão da Montanha lhe tivesse falado “directamente ao coração”. Ele, que desenvolvera inicialmente aversão pelo cristianismo (a religião da potência colonial), apesar de admirar francamente a figura de Jesus Cristo.
Instituída pela ONU em 2010 e assinalada desde 2011, na primeira semana de Fevereiro de cada ano, a Semana Mundial da Harmonia Inter-Religiosa (“World Interfaith Harmony Week”) destina-se a contribuir para a promoção de uma cultura de paz e não-violência, a cooperação inter-religiosa e intercultural, o diálogo entre civilizações, a compreensão, respeito mútuo e a eliminação de todas as formas de intolerância, discriminação e fundamentalismo.
Norman Rockwell expôs na sua obra Golden Rule (“Regra de Ouro”), publicada em 1961, um famoso princípio de harmonia entre as diferentes religiões, confissões e crenças, e que integrou o icónico mosaico oferecido às Nações Unidas, em 1985, pela primeira-dama Nancy Reagan em nome dos Estados Unidos: “Faz aos outros o que gostarias que te fizessem”. Eis um princípio moral presente em praticamente todas as religiões e culturas como regra fundamental de vida.
A ética da reciprocidade mais conhecida na cultura ocidental é a que foi pronunciada por Jesus Cristo, no Sermão do Monte: “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós a eles” (Mateus 7:12). Mas existem enunciações semelhantes noutros contextos religiosos, como é o caso do Judaísmo: “O que é odioso para ti, não o faças ao próximo”, ou no Confucionismo: “Não façais aos outros aquilo que não quereis que vos façam” (Confúcio), mas também no Zoroastrismo: “Aquela natureza só é boa quando não faz ao outro aquilo que não é bom para ela própria” (Dadistan-i-Dinik 94:5), no Hinduísmo: “Esta é a suma do dever: não faças aos outros aquilo que se a ti for feito, te causará dor” (Mahabharata 5:15:17), ou no Budismo: “Não atormentes o próximo com o que te aflige” (Udana-Varga 5:18).
É estranho que tal denominador comum presente nas religiões em geral não funcione como princípio de tolerância, compreensão e aceitação entre os povos. Trata-se dum princípio simples, lógico e razoável que permitiria construir pontes em vez de muros entre comunidades com concepções diferentes da vida e da transcendência. Luther King tinha inteira razão quando proferiu a célebre frase: “Aprendemos a voar como os pássaros e a nadar como os peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos.”
É certo que a resposta de Jesus de Nazaré vai muito mais longe do que a ética da reciprocidade, quando estimula a “dar a outra face” (Mateus 5:39), a “dar também a capa” (40), a “caminhar mais uma milha” (41) e explica que os que choram serão consolados, por isso são felizes (Mateus 5:4). Ou então a de S. Paulo, que ensina a “suportar o dano” (1 Coríntios 6:7), porque o amor tudo sofre (13:7). Mas isso merece uma outra reflexão.
José Brissos-Lino é diretor do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na Visão Online.
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