Sacerdócio e abusos sexuais
A criança do conto
No conto O rei vai nu, os cérebros dos súbditos continuavam, apesar das evidências, a vestir o rei. Vendo o monarca na sua condição vulnerável de mortal em tudo semelhante aos que da margem do cortejo o aclamavam, recusavam-se a admitir o inegável: que toda a ostentação de poder é ridícula. Não vã, contudo. Eles continuavam a precisar dela e a alimentá-la com o seu aplauso. Pois, sem a segurança proporcionada por tal poder, sentir-se-iam órfãos e incapazes de tomarem o protagonismo do seu próprio destino.
Assim, o medo de perderem quem lhes indicasse o que fazer soldava-os nessa ilusão consentida de que o rei, ainda que nu, continuava a protegê-los. Sintomaticamente, será uma criança (desprovida ainda das máscaras da conveniência e do conformismo) a desmascarar a farsa. Ela tem os olhos afinados para o que é evidente e nenhum tento na língua, e isso afigura-se-lhes perigoso. Pelo que os adultos mais próximos dela se precipitam a repreendê-la e impor-lhe o silêncio.
No entanto, sabe-se o que aconteceu depois. Num gesto de verdadeira nobreza, o rei do conto acaba a reconhecer a sua nudez, leia-se, a sua humanidade, e agradece à criança por ter sido o espelho de sua verdadeira medida.
A nudez do bispo
Convido o leitor a imaginar um bispo nu. Consoante as diferentes sensibilidades e formação, a proposta apresentar-se-á sacrílega a uns, como tendo sido originada pelo mau-gosto a outros, talvez divertida a um terceiro grupo. Seja como for, se levar o exercício até ao fim, o leitor verá que é muito difícil, senão impossível, imaginar um bispo nu. A palavra bispo evoca imediatamente a veste majestática que cobre a nudez do homem que a enverga e que o distingue dos demais homens.
Disse bispo para enfatizar a ideia desta distinção, mas o que está em causa é o sacerdócio. Para o efeito, é indiferente tratar-se de um bispo ou de um padre. Como se sabe, o sacerdote é etimologicamente o separado, aquele que, contactando privilegiadamente com o divino, seria na terra exemplo de uma outra vida, até certo ponto livre já das condicionantes da vida humana e animal.
Neste sentido, exige-se-lhe que seja sinal visível dessa liberdade. E, para tanto, tem sido necessário ao longo dos séculos ostentar alguns símbolos exteriores, símbolos que obrigatoriamente seriam acompanhados por opções íntimas radicais. O celibato e castidade entender-se-iam precisamente à luz desta ideia. Pelo contrário, segundo esta visão, os fiéis estariam condenados à condição intermédia daquele que, tendo aspirações humanas a uma vida mais elevada, pela necessidade de se reproduzir, precisa ainda do sexo, nessa medida participando da vida inferior dos animais…
A Igreja e o sexo
Deveremos ficar descansados, agora que são conhecidas as conclusões dos bispos reunidos em Roma para decidir sobre o que fazer perante o escândalo da pedofilia e do crime dos abusos sexuais levados a cabo por membros do clero? Atrever-me-ia a um peremptório não. Tais medidas são decepcionantes e inspiram uma verdadeira preocupação. Irei mais longe, acrescentando que foi perdida mais uma oportunidade de ouro: a oportunidade de se enfrentar corajosamente um dos maiores problemas de entre os muitos problemas que acompanharam a Igreja nos seus vinte séculos de existência. Um problema do qual decorre não só o número impressionante de casos de pedofilia e os abusos sobre menores, mas também muitas outras formas de infelicidade.
Refiro-me, e julgo não dar novidade a ninguém, ao sexo. Pois, desde muito cedo, talvez desde Paulo, a Igreja não sabe lidar com o sexo. As consequências desta inépcia têm sido trágicas para mulheres, crianças e homens (nos quais se incluem também muitíssimos sacerdotes).
Sendo isto uma evidência para quase toda a gente de fora da Igreja e para muitos dos inquietos que nela continuam, que fizeram uma vez mais os bispos? Protegidos pela visão milenar do sacerdócio, sobranceiramente ignoraram ou fizeram por ignorar todas as recentes descobertas científicas sobre a sexualidade humana. O que a Biologia, a Genética, a Neurologia, a Psicologia, a Psicanálise revelaram até hoje sobre o que é um corpo humano, as suas necessidades e impulsos naturais, bem como os desequilíbrios decorrentes de uma deficiente orientação de tais impulsos nas relações afectivas, todos esses conhecimentos pura e simplesmente parecem não existir para a maioria dos que orientam a Igreja.
Mesmo ressalvando que foram episodicamente contemplados, a verdade é que, a avaliar pelos resumos, não tiveram qualquer consequência nas conclusões do encontro. Pois não são estas, se analisarmos bem, meras medidas cosméticas de um mal hediondo? Ainda que, e muito bem, a responsabilidade civil esteja agora prevista – o que calculadamente adormecerá uma opinião pública mais truculenta –, acaso foi posta em questão a cultura da sexualidade reprimida ou considerada a sua responsabilidade em grande parte das perversões e crimes que vêm agora a lume, bem como nas perversões e crimes que ficaram na obscuridade dos séculos?…
Os bispos como homens que são
Mas o que seria enfrentar o problema do sexo com coragem? Assumir a história da Igreja sem perpetuar aquilo que se tornou um erro histórico ajudaria muito; tal como não idealizar a Tradição (sobretudo quando ela originou frutos aberrantes)… Abrir um caminho de verdade, libertação e alegria certamente está ao alcance dos que podem fazer a mudança.
Se é verdade que encontramos em Paulo e nos Padres da Igreja uma apologia do celibato, em vinte séculos de cristianismo, a obrigatoriedade do mesmo é relativamente tardia, pois, como se sabe, apesar de recomendado e defendido em vários concílios desde o Concílio de Elvira, no século IV, só o Concílio de Trento, no século XVI, determina definitivamente a sua obrigatoriedade.
Na Carta Encíclica Sacerdotalis Caelibatus, Paulo VI claramente hesita em deixar cair a obrigatoriedade, mas acaba por ceder à continuação da imposição. Não se trata de diabolizar o celibato, atenção. Muitos são aqueles que efectivamente sentem uma tendência natural para o mesmo. Mas onde alguns sublimam verdadeiramente as suas pulsões, outros, mesmo convencidos do contrário, cultivam somente a frustração, a negatividade, os impulsos destrutivos, a crueldade e a perversão da inocência alheia.
[Não será certamente por acaso que alguns das mais perversas máquinas sexuais das obras de Sade, pertencendo ao clero, são tão convincentes. É que, vencidas as primeiras resistências das boas intenções e dos preceitos racionais, para as naturezas lúbricas (e alguém poderá negar que elas existem entre os membros do clero?), a transgressão dos interditos afigura-se extremamente excitante. Daí ao abuso da inocência vai um nada…]
O espelho da verdadeira medida
No entanto, se os bispos se voltarem a reunir em Roma e estiverem, dessa feita, realmente interessados em resolver a Questão Sexual, terão certamente de ir muito além da simples permissão do casamento dos sacerdotes ou do levantar a imposição do celibato. Naturalmente, terá de ser reconhecido o direito às mulheres de aceder ao diaconado (direito que, de resto, já foi delas no passado) e, claro, ser reconhecido o seu direito ao sacerdócio.
Mas a Questão não estará resolvida com estas medidas. Toda a doutrina sobre a sexualidade terá de sofrer uma reconversão de fundo. A redução do sexo à reprodução terá de ser abandonada definitivamente. A ternura e os afectos terão de ter a primazia sobre os preceitos e os rituais. A exaltação da alegria dos corpos terá de ser completamente assumida. Sem esta revolução, a Igreja continuará a fomentar más notícias em vez confirmar a Boa-Nova, a gerar medo e sofrimento em vez de, como Cristo, propor a libertação da pessoa e uma vida vivida em alegria.
Paulo Carvalho é professor
[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]
Breves
José Allamano e a Consolata
Exposição fotográfica revela 100 anos de história das missões
Por ocasião dos 100 anos da morte de São José Allamano, assinalados este ano, o Consolata Museu, em Fátima, tem patente ao público uma exposição dedicada a este fundador dos dois institutos missionários. [Texto de Juliana Batista].
Relatório Centro Rossing
Jerusalém: ataques violentos a cristãos quase duplicaram em dois anos
Os ataques violentos a cristãos em Israel e em Jerusalém oriental ocupada estão a tornar-se cada vez mais frequentes, tendo quase duplicado nos dois últimos anos, de acordo com organizações israelitas citadas pelo órgão público de rádio alemão Deutsche Welle (DW).
Apelo ao Governo
Cristãos do Bangladesh querem feriado no Domingo de Páscoa e maior representação na vida pública
Um cordão humano com mais de 100 pessoas exigiu, durante toda a manhã de dia 31 de março, em frente ao Clube Nacional de Imprensa, em Daca, que o Domingo de Páscoa fosse reconhecido pelo Governo do Bangladesh como feriado nacional. A concentração organizada pela Associação Cristã de Bangladesh reivindicou também lugares na vida pública reservados à representação dos cristãos e de outras minorias.
Sexta-feira Santa
Papa carrega a cruz e meditações da Via Sacra dão voz ao sofrimento dos povos do Médio Oriente
O Papa presidirá a todas as 14 estações da Via Sacra no Coliseu de Roma, carregando a cruz pessoalmente durante toda a liturgia, que será marcada pelas meditações escritas pelo frei franciscano Francesco Patton, ex-Custódio da Terra Santa (2016-2025) e que atualmente vive no santuário do Memorial de Moisés no Monte Nebo, na Jordânia.
Boas notícias
Apelo de Metz
Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana
Os representantes das principais tradições religiosas presentes em França comprometeram-se esta segunda-feira, na cidade de Metz, a aprofundar o diálogo entre si, a educar as novas gerações para o conhecimento mútuo e a permanecerem unidos na promoção da justiça e da paz.
É notícia
Entre margens
[Entre Margens]
Joana Lopes: 88 cravos à sua memória novidade
No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].
[Entre Margens]
Guerras e mudanças de regime novidade
Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].
[Entre Margens]
A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber
Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].
Cultura e artes
Em 2016 eram quatro milhões
Só numa “app” há quase 20 milhões de pessoas que leem a Bíblia todos os dias novidade
Mais de 18,5 milhões de pessoas em todo o mundo leem diariamente excertos da Bíblia através da aplicação da YouVersion, um crescimento de 13 por cento quando comparado com 2025, anunciou a empresa que está a preparar a segunda edição do Mês Global da Bíblia.
Rostos e Rumos
Adelino Ascenso, o padre missionário que quase foi monge budista
Uma rara experiência durante a juventude levou-o a sítios inóspitos como Katmandu, no Nepal. Na América Latina acompanhou na selva amazónica um pistoleiro durante dez dias. O missionário Adelino Ascenso, que viveu 12 anos no Japão, é o último entrevistado do programa Rostos e Rumos, parceria da TSF e do 7MARGENS.
Livro em cinco línguas
“Diário Privado do Papa Francisco” revelado em novembro
Em italiano, francês, espanhol, inglês e português: é nestas cinco línguas, para 94 países, que será editado a 24 de novembro o diário do Papa Francisco, anotado pelo cardeal Víctor Manuel Fernández, pela Editora do Vaticano.
7MARGENS é co-organizador
Como os média religiosos viveram a nova liberdade de imprensa pós-25 de Abril
“Liberdade de imprensa: revolução e democracia em Portugal” é o tema do colóquio que, no dia 22 de Outubro, colocará em debate, na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, investigadores e protagonistas do período pós-25 de Abril de 1974, para aprofundar questões relacionadas com a imprensa – incluindo a religiosa – durante a revolução democrática.
Sete Partidas
7Partidas
Vinte e cinco anos depois
Em 2001, vivíamos em San Francisco. Naquela segunda-feira, dia 11 de Setembro, fomos acordados pelo meu sogro, que nos ligava da Alemanha para avisar que os EUA estavam a ser atacados. Em San Francisco era ainda madrugada; em Nova Iorque passava das nove da manhã, e as duas torres já estavam a arder. [Texto de Helena Araújo].
Visto e Ouvido
Igreja tem política de “tolerância zero” aos abusos sexuais, mas ainda está em “processo de purificação”
Agenda
[ai1ec view=”agenda”]


















