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Sacerdócio e abusos sexuais

| 07/03/2019

Sacerdócio e abusos sexuais

by | 7 Mar 19 | Entre Margens, Últimas

A criança do conto

No conto O rei vai nu, os cérebros dos súbditos continuavam, apesar das evidências, a vestir o rei. Vendo o monarca na sua condição vulnerável de mortal em tudo semelhante aos que da margem do cortejo o aclamavam, recusavam-se a admitir o inegável: que toda a ostentação de poder é ridícula. Não vã, contudo. Eles continuavam a precisar dela e a alimentá-la com o seu aplauso. Pois, sem a segurança proporcionada por tal poder, sentir-se-iam órfãos e incapazes de tomarem o protagonismo do seu próprio destino.

Assim, o medo de perderem quem lhes indicasse o que fazer soldava-os nessa ilusão consentida de que o rei, ainda que nu, continuava a protegê-los. Sintomaticamente, será uma criança (desprovida ainda das máscaras da conveniência e do conformismo) a desmascarar a farsa. Ela tem os olhos afinados para o que é evidente e nenhum tento na língua, e isso afigura-se-lhes perigoso. Pelo que os adultos mais próximos dela se precipitam a repreendê-la e impor-lhe o silêncio.

No entanto, sabe-se o que aconteceu depois. Num gesto de verdadeira nobreza, o rei do conto acaba a reconhecer a sua nudez, leia-se, a sua humanidade, e agradece à criança por ter sido o espelho de sua verdadeira medida.

 

A nudez do bispo

Convido o leitor a imaginar um bispo nu. Consoante as diferentes sensibilidades e formação, a proposta apresentar-se-á sacrílega a uns, como tendo sido originada pelo mau-gosto a outros, talvez divertida a um terceiro grupo. Seja como for, se levar o exercício até ao fim, o leitor verá que é muito difícil, senão impossível, imaginar um bispo nu. A palavra bispo evoca imediatamente a veste majestática que cobre a nudez do homem que a enverga e que o distingue dos demais homens.

Disse bispo para enfatizar a ideia desta distinção, mas o que está em causa é o sacerdócio. Para o efeito, é indiferente tratar-se de um bispo ou de um padre. Como se sabe, o sacerdote é etimologicamente o separado, aquele que, contactando privilegiadamente com o divino, seria na terra exemplo de uma outra vida, até certo ponto livre já das condicionantes da vida humana e animal.

Neste sentido, exige-se-lhe que seja sinal visível dessa liberdade. E, para tanto, tem sido necessário ao longo dos séculos ostentar alguns símbolos exteriores, símbolos que obrigatoriamente seriam acompanhados por opções íntimas radicais. O celibato e castidade entender-se-iam precisamente à luz desta ideia. Pelo contrário, segundo esta visão, os fiéis estariam condenados à condição intermédia daquele que, tendo aspirações humanas a uma vida mais elevada, pela necessidade de se reproduzir, precisa ainda do sexo, nessa medida participando da vida inferior dos animais…

 

A Igreja e o sexo

Deveremos ficar descansados, agora que são conhecidas as conclusões dos bispos reunidos em Roma para decidir sobre o que fazer perante o escândalo da pedofilia e do crime dos abusos sexuais levados a cabo por membros do clero? Atrever-me-ia a um peremptório não. Tais medidas são decepcionantes e inspiram uma verdadeira preocupação. Irei mais longe, acrescentando que foi perdida mais uma oportunidade de ouro: a oportunidade de se enfrentar corajosamente um dos maiores problemas de entre os muitos problemas que acompanharam a Igreja nos seus vinte séculos de existência. Um problema do qual decorre não só o número impressionante de casos de pedofilia e os abusos sobre menores, mas também muitas outras formas de infelicidade.

Refiro-me, e julgo não dar novidade a ninguém, ao sexo. Pois, desde muito cedo, talvez desde Paulo, a Igreja não sabe lidar com o sexo. As consequências desta inépcia têm sido trágicas para mulheres, crianças e homens (nos quais se incluem também muitíssimos sacerdotes).

Sendo isto uma evidência para quase toda a gente de fora da Igreja e para muitos dos inquietos que nela continuam, que fizeram uma vez mais os bispos? Protegidos pela visão milenar do sacerdócio, sobranceiramente ignoraram ou fizeram por ignorar todas as recentes descobertas científicas sobre a sexualidade humana. O que a Biologia, a Genética, a Neurologia, a Psicologia, a Psicanálise revelaram até hoje sobre o que é um corpo humano, as suas necessidades e impulsos naturais, bem como os desequilíbrios decorrentes de uma deficiente orientação de tais impulsos nas relações afectivas, todos esses conhecimentos pura e simplesmente parecem não existir para a maioria dos que orientam a Igreja.

Mesmo ressalvando que foram episodicamente contemplados, a verdade é que, a avaliar pelos resumos, não tiveram qualquer consequência nas conclusões do encontro. Pois não são estas, se analisarmos bem, meras medidas cosméticas de um mal hediondo? Ainda que, e muito bem, a responsabilidade civil esteja agora prevista – o que calculadamente adormecerá uma opinião pública mais truculenta –, acaso foi posta em questão a cultura da sexualidade reprimida ou considerada a sua responsabilidade em grande parte das perversões e crimes que vêm agora a lume, bem como nas perversões e crimes que ficaram na obscuridade dos séculos?…

 

Os bispos como homens que são

Mas o que seria enfrentar o problema do sexo com coragem? Assumir a história da Igreja sem perpetuar aquilo que se tornou um erro histórico ajudaria muito; tal como não idealizar a Tradição (sobretudo quando ela originou frutos aberrantes)… Abrir um caminho de verdade, libertação e alegria certamente está ao alcance dos que podem fazer a mudança.

Se é verdade que encontramos em Paulo e nos Padres da Igreja uma apologia do celibato, em vinte séculos de cristianismo, a obrigatoriedade do mesmo é relativamente tardia, pois, como se sabe, apesar de recomendado e defendido em vários concílios desde o Concílio de Elvira, no século IV, só o Concílio de Trento, no século XVI, determina definitivamente a sua obrigatoriedade.

Na Carta Encíclica Sacerdotalis Caelibatus, Paulo VI claramente hesita em deixar cair a obrigatoriedade, mas acaba por ceder à continuação da imposição. Não se trata de diabolizar o celibato, atenção. Muitos são aqueles que efectivamente sentem uma tendência natural para o mesmo. Mas onde alguns sublimam verdadeiramente as suas pulsões, outros, mesmo convencidos do contrário, cultivam somente a frustração, a negatividade, os impulsos destrutivos, a crueldade e a perversão da inocência alheia.

[Não será certamente por acaso que alguns das mais perversas máquinas sexuais das obras de Sade, pertencendo ao clero, são tão convincentes. É que, vencidas as primeiras resistências das boas intenções e dos preceitos racionais, para as naturezas lúbricas (e alguém poderá negar que elas existem entre os membros do clero?), a transgressão dos interditos afigura-se extremamente excitante. Daí ao abuso da inocência vai um nada…]

 

O espelho da verdadeira medida

No entanto, se os bispos se voltarem a reunir em Roma e estiverem, dessa feita, realmente interessados em resolver a Questão Sexual, terão certamente de ir muito além da simples permissão do casamento dos sacerdotes ou do levantar a imposição do celibato. Naturalmente, terá de ser reconhecido o direito às mulheres de aceder ao diaconado (direito que, de resto, já foi delas no passado) e, claro, ser reconhecido o seu direito ao sacerdócio.

Mas a Questão não estará resolvida com estas medidas. Toda a doutrina sobre a sexualidade terá de sofrer uma reconversão de fundo. A redução do sexo à reprodução terá de ser abandonada definitivamente. A ternura e os afectos terão de ter a primazia sobre os preceitos e os rituais. A exaltação da alegria dos corpos terá de ser completamente assumida. Sem esta revolução, a Igreja continuará a fomentar más notícias em vez confirmar a Boa-Nova, a gerar medo e sofrimento em vez de, como Cristo, propor a libertação da pessoa e uma vida vivida em alegria.

Paulo Carvalho é professor

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