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As mulheres e uma reinterpretação da experiência do religioso

As mulheres e uma reinterpretação da experiência do religioso

by | 9 Mar 19 | Cristianismo, Destaques, Outras Religiões, Religiões e Mulheres, Últimas

“Um retrato da situação das mulheres nas principais tradições religiosas e dos debates existentes sobre os seus papéis dentro das diferentes confissões” – foi este o mote para uma série de artigos da autoria de Maria Wilton, publicados no 7MARGENS ao longo dos últimos dias. [Os textos podem ser lidos aqui: Igreja Católica, Igrejas protestantes e Evangélicas, Judaísmo, Budismo, Hinduísmo e Islão.]

Mulheres à porta do templo, impedidas de entrar, mulheres cingidas a uma zona onde permanecem arredadas dos homens, mulheres longe do Muro das Lamentações, mulheres apartadas do altar, excluídas de um sacramento, mulheres à margem porque solteiras, divorciadas ou porque necessitadas de “proteção”. Assim se define, no quadro de uma topologia própria do religioso, o feminino enquanto presença circundante, à volta de, quando não fora de, ocupando uma posição periférica, portanto. Os lugares de culto definem um centro atractor, para que convergem os corpos, os gestos, as palavras e todos os sinais, daí se elevando para o divino e aí se fazendo a mediação entre a terra e os céus, que é uma entre outras formas de dizer um horizonte tido como inalcançável ou como alcançável, num movimento que é sempre ascensional. Os respetivos oficiantes destacam-se neste quadro e esse destaque é uma forma iniludível de poder. Chama-se-lhe serviço: são ministros. Mas, enquanto tal, serviçais do culto e do templo e guardiões da justa doutrina, têm voz: a primeira, e por vezes única, voz; têm um lugar: o primeiro lugar na hierarquia dos crentes, ainda que esta possa ser tacitamente definida. Essa voz é masculina, esse lugar ocupam-no homens.

No espaço religioso, o feminino define-se “enquanto presença circundante, à volta de, quando não fora de, ocupando uma posição periférica”; Foto © Zaid Abu Taha/Pexels; foto de abertura © CrimsonBrainstorm/Pixabay

 

O religioso, institucionalmente entendido, é masculino. Sabemo-lo todos: tem raízes patriarcais profundas, seja no judaísmo, no cristianismo (católico ou protestante) ou no islão, seja no budismo ou no hinduísmo. Em nome dessas raízes, da Tradição (encontramo-lo frequentemente assim, grafado com maiúscula), perpetuam-se hábitos discriminatórios cuja forma e incidência só varia em função do grau de permeabilidade do religioso à promoção que politicamente se faça dos “direitos das mulheres” e, portanto, com alcance digno de nota apenas a partir do século XX, com a democratização de certas sociedades.

Ao próprio corpo como lugar de relação com o divino, se atribui uma significação diferente consoante se trate de um corpo masculino ou de um corpo feminino. Os interditos, quaisquer que sejam, aplicam-se sobretudo ao corpo feminino, que pode ser, em certas circunstâncias, impuro. As mulheres têm um corpo vivo, cíclico, que parece ser encarado como irreconciliável com uma, tantas vezes, pretensa descorporização do movimento espiritual. Perturba, portanto. Parece entender-se que a sensualidade própria de corpos que se movem intimamente numa relação com ciclos biológicos desloca o foco. Talvez por isso sejam convenientemente reduzidos a uma funcionalidade, no caso reprodutora.

Já no respeitante ao corpo masculino, se outras evidências faltassem de qual o tipo de relação que este estabelece com o mundo, bastar-nos-ia observar a panóplia de objetos cultuais envergados, sobretudo no mundo ocidental, pelos oficiantes do religioso, com gravidade e de acordo com prescrições que já quase não respondem a outras motivações senão a da simbólica do poder. São, pois, os princípios da exterioridade e do domínio masculinos o que superordena a relação com o divino, daí resultando a ideia de transcendência, que instaura uma mundividência própria, eminentemente hierarquizante. A interioridade e o cuidado são, pelo contrário, o que é próprio da imanência, princípio arquetipicamente mais ligado ao feminino e mais facilmente identificável com as tradições orientais, sobretudo com o budismo.

 

De uma agenda patriarcal a uma experiência de encontro

As mulheres no espaço religioso seguem cumprindo a agenda patriarcal definida nas diferentes tradições ao longo de séculos e mesmo de milénios. Não nos serve isso, certamente, às mulheres e aos homens que somos. Leonardo Boff (Experimentar Deus) reflete sobre um lugar de convergência destas duas maneiras de o ser humano se relacionar com o mundo e, consequentemente, com o divino, isto é, a transcendência e a imanência. Sugere, pois, outra maneira, a da transparência. De acordo com Boff, pela transparência, entende-se, entre outras coisas, que a transcendência se dá dentro da imanência sem nela se perder e que a imanência carrega dentro de si a transcendência.

Sabemos que o religioso é sempre uma experiência interpretada. Por conseguinte, só por via de uma reinterpretação da experiência do religioso se pode encarar, entre outras, a questão das mulheres. Deste modo, a espiritualidade no mundo, que assume a expressão das diferentes religiões e de uma pluralidade de confissões, pode voltar a partir, de cada vez como outrora, do deserto. Podemos ser, homens e mulheres, mulheres e homens, aqueles nómadas que se encontram – ainda e sempre homens e mulheres, mulheres e homens, mas sobretudo frágeis, num encontro fora de portas onde, por isso, já não há hierarquia, mas rizoma. Nesse lugar sem centro, pode-se, de cada vez (e tem que ser de cada vez; nada é um para sempre), escutar a voz de quem, enquanto mata a sede e entre dois goles de água, nos convida a adorar “em espírito e verdade” (Evangelho de S. João 4,24).

Desconheço, mas intuo que todas as expressões do religioso permitem essa outra topologia. Há certamente em todas as tradições religiosas, nalguma narrativa, uma experiência de encontro que se dá num lugar fora de portas e onde, por isso, o centro se desloca. Nesta possibilidade de deslocação está certamente em potência – estou em crer – uma outra forma de conceber a participação de todos na vida das comunidades, já não hierárquica nem excludente, mas rizomática e integradora.

(Nota: Este texto foi escrito ao som de Hildegard von Bingen, uma das poucas mulheres compositoras reconhecidas pela Igreja Católica.)

Helena Topa Valentim é professora universitária e membro do Graal, movimento internacional de mulheres, de inspiração cristã

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