“Como nos comportamos à porta do Inferno?”

Por uma coincidência involuntária – de facto, só o soube depois – fui ver este filme no Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, que se celebra anualmente a 27 de Janeiro, o mesmo dia em que, em 1945, foram abertos os portões de Auschwitz e os prisioneiros começaram a ser libertados; e em que, cada ano, somos lembrados de que não podemos esquecer que o inferno pode sempre ser nesta terra.“Não nos esqueçamos das vítimas do Holocausto, o seu sofrimento indescritível continua a gritar à humanidade: todos somos irmãos”, escrevia o papa no Twiter, nesse dia.
Em Trânsito não é sobre isso, mas passa-se em França quando esta está ocupada, e retrata as tentativas de muitos refugiados para navegarem até ao outro lado do mundo, onde poderão viver em liberdade.
A primeira estranheza do filme é a mistura do passado com o presente: os personagens são do passado, mas o ‘resto’ é tudo presente. Como quem sugere que, afinal, vivemos os mesmos medos e perigos, que o mundo continua a ser um ‘inferno’. É assim que começa um livro, escrito à máquina numas folhas e que o autor não chegou a editar. Estará ainda guardado pelo dono daquele café de Marselha, o Ventoux? Nunca o saberemos. O que sabemos, dito pelo próprio realizador (Christian Petzold), é que o filme “é um espelho para a nossa condição actual de europeus, o fascismo húngaro, o fascismo polaco, o Salvini em Itália. Perante isto, o que sinto é exactamente: vergonha” (Entrevista ao Ípsilon/Público, 25 de Janeiro).
Os refugiados continuam a ser demais, hoje, enredados nas mesmas burocracias desumanizadoras. A propósito, António Vitorino, director-geral da Organização Internacional das Migrações, no mesmo jornal e dia, dava uma entrevista, onde se dizia que “são 260 milhões as pessoas em trânsito no mundo, entre refugiados, migrantes económicos e deslocados no interior do mesmo país”.
A segunda estranheza é a música com que o filme termina, quando a tela fica negra e aparecem os créditos: Caminho para lado nenhum. Também esta é “moderna” demais, mas traduz a mesma sensação de que não há saída. Em contraste, está uma outra canção, antiga, que a mãe costumava cantar quando o protagonista era criança, para ele adormecer, e que falava, nostalgicamente do contrário: voltar a casa. Um refugiado pouco mais leva, na bagagem, do que as memórias. Mas esse tempo passou e tudo se desmorona, desaparece ou morre, à volta dele. E ele continua sozinho no mesmo café, quando a porta se abre, uma vez mais, e ele parece esboçar um sorriso. Será Criss que entra? Se for, talvez então haja algum futuro e o amor e a ternura ainda tenham lugar nesta terra.
Adaptado de um romance da escritora judia Anna Seghers, publicado em 1944, e que se baseia na sua própria experiência a seguir à invasão nazi de França, Em Trânsitoé um filme muito interessante e actual, que vale a pena ver. Para além dos actores e interpretações, procura responder a esta pergunta: como conservar a humanidade em situações de crise total? E esta é uma pergunta para a qual não podemos – todos – deixar de procurar uma boa resposta.
Manuel Mendes é padre católico e pároco de Matosinhos; o texto foi inicialmente publicado na revista Mensageiro de Santo António, de Março 2019)
[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]
Breves
José Allamano e a Consolata
Exposição fotográfica revela 100 anos de história das missões
Por ocasião dos 100 anos da morte de São José Allamano, assinalados este ano, o Consolata Museu, em Fátima, tem patente ao público uma exposição dedicada a este fundador dos dois institutos missionários. [Texto de Juliana Batista].
Relatório Centro Rossing
Jerusalém: ataques violentos a cristãos quase duplicaram em dois anos
Os ataques violentos a cristãos em Israel e em Jerusalém oriental ocupada estão a tornar-se cada vez mais frequentes, tendo quase duplicado nos dois últimos anos, de acordo com organizações israelitas citadas pelo órgão público de rádio alemão Deutsche Welle (DW).
Apelo ao Governo
Cristãos do Bangladesh querem feriado no Domingo de Páscoa e maior representação na vida pública
Um cordão humano com mais de 100 pessoas exigiu, durante toda a manhã de dia 31 de março, em frente ao Clube Nacional de Imprensa, em Daca, que o Domingo de Páscoa fosse reconhecido pelo Governo do Bangladesh como feriado nacional. A concentração organizada pela Associação Cristã de Bangladesh reivindicou também lugares na vida pública reservados à representação dos cristãos e de outras minorias.
Sexta-feira Santa
Papa carrega a cruz e meditações da Via Sacra dão voz ao sofrimento dos povos do Médio Oriente
O Papa presidirá a todas as 14 estações da Via Sacra no Coliseu de Roma, carregando a cruz pessoalmente durante toda a liturgia, que será marcada pelas meditações escritas pelo frei franciscano Francesco Patton, ex-Custódio da Terra Santa (2016-2025) e que atualmente vive no santuário do Memorial de Moisés no Monte Nebo, na Jordânia.
Boas notícias
Apelo de Metz
Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana
Os representantes das principais tradições religiosas presentes em França comprometeram-se esta segunda-feira, na cidade de Metz, a aprofundar o diálogo entre si, a educar as novas gerações para o conhecimento mútuo e a permanecerem unidos na promoção da justiça e da paz.
É notícia
Entre margens
[Entre Margens]
Joana Lopes: 88 cravos à sua memória
No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].
[Entre Margens]
Guerras e mudanças de regime
Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].
[Entre Margens]
A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber
Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].
Cultura e artes
Em 2016 eram quatro milhões
Só numa “app” há quase 20 milhões de pessoas que leem a Bíblia todos os dias
Mais de 18,5 milhões de pessoas em todo o mundo leem diariamente excertos da Bíblia através da aplicação da YouVersion, um crescimento de 13 por cento quando comparado com 2025, anunciou a empresa que está a preparar a segunda edição do Mês Global da Bíblia.
Rostos e Rumos
Adelino Ascenso, o padre missionário que quase foi monge budista
Uma rara experiência durante a juventude levou-o a sítios inóspitos como Katmandu, no Nepal. Na América Latina acompanhou na selva amazónica um pistoleiro durante dez dias. O missionário Adelino Ascenso, que viveu 12 anos no Japão, é o último entrevistado do programa Rostos e Rumos, parceria da TSF e do 7MARGENS.
Livro em cinco línguas
“Diário Privado do Papa Francisco” revelado em novembro
Em italiano, francês, espanhol, inglês e português: é nestas cinco línguas, para 94 países, que será editado a 24 de novembro o diário do Papa Francisco, anotado pelo cardeal Víctor Manuel Fernández, pela Editora do Vaticano.
7MARGENS é co-organizador
Como os média religiosos viveram a nova liberdade de imprensa pós-25 de Abril
“Liberdade de imprensa: revolução e democracia em Portugal” é o tema do colóquio que, no dia 22 de Outubro, colocará em debate, na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, investigadores e protagonistas do período pós-25 de Abril de 1974, para aprofundar questões relacionadas com a imprensa – incluindo a religiosa – durante a revolução democrática.
Sete Partidas
[Sete Partidas]
As cápsulas
No radio do carro tocava um CD da Rosalía e comecei a pensar no que já me disseram sobre o meu carro, pequeno e velho, dito em várias variações. Não levo a mal. É verdade, mas tem tudo o que preciso. Abrigo do sol, do frio, da chuva e da neve. Confiável. Riscado e muitas vezes sujo por fora, mas por dentro limpo e arrumado. Um pouco na ordem como valorizo as coisas na vida. Menos ostentação, mais conteúdo. [Texto de Inês Patrício, Berlim].
Visto e Ouvido
Igreja tem política de “tolerância zero” aos abusos sexuais, mas ainda está em “processo de purificação”
Agenda
[ai1ec view=”agenda”]


















