Clubes Terra Justa: a cidadania não se confinou

Um teatro de rua sobre o tema dis refugiados no Encontro Terra Justa de 2016, em Fafe. Foto © Manuel Meira
Numa das conversas, um estudante do 12º ano diz que conseguiu atenuar as distâncias com recurso às ferramentas digitais. Mas reconhece, agora mais do que nunca, que “o cara-a-cara faz-nos falta”. Outra, mais nova, do 7º ano, conta que perdeu a vontade de tocar guitarra, porque a música “não é para ficar entre as quatro paredes” do seu quarto. Mas também há quem tenha experimentado, pela primeira vez, o gosto pela culinária.
Durante esta semana, estudantes e movimento associativo de Fafe debatem o impacto do confinamento na cidadania e na justiça. A Semana Online dos Clubes Terra Justa é assinalada em conferências, trabalhos e exposições, com transmissão exclusiva pela internet. Entre as várias iniciativas, contam-se as conversas com alunos do 7º ao 12º ano, constituídos como Clubes Terra Justa dos vários agrupamentos de escolas de Fafe.
A distância física dos amigos, a falta da escola, da prática desportiva ou de atividades lúdicas como a música, são as referências negativas apontadas pelos jovens, que realçam, como aspeto positivo, a possibilidade que tiveram de experimentar outras atividades mais domésticas e necessariamente criativas para atenuar o isolamento, como a leitura, a atenção à informação jornalística na televisão ou a confraternização familiar. E contam episódios com irmãos e pais que traduzem como que a própria redescoberta.
Revelam-se “sem medos” e com “vitalidade”, diz o jornalista Joaquim Franco, um dos dinamizadores dos Clubes Terra Justa. “Para estes jovens, o tempo confinado não foi um tempo perdido, mas de oportunidades, descobertas e revisões.”
Numa outra conversa, os jovens foram desafiados a propor uma palavra para definir a fase de desconfinamento. Desafio, receio, aflição, esperança, liberdade, saudade, medo, reviver, solitário, insegurança, confusão, novidade, recomeço, nervosismo, curiosidade e tempo, foram as palavras selecionadas. “Quase fazemos um tratado de filosofia para os dias que estamos a viver”, sugere Paulo Mendes Pinto, professor de Ciência das Religiões na Universidade Lusófona. E os jovens revelam mesmo que a sua cidadania não se confinou e traduzem antes uma “grande preocupação com os sinais de desleixo e irresponsabilidade” na atual fase de retoma.
Num ensaio de escrita partilhada, uma das turmas do ensino secundário constituída como Clube Terra Justa, lançou nesta semana um livro eletrónico com o título A saga de um vírus que pintou o mundo a preto e branco.
Noutra proposta de debate, juntaram-se quatro profissionais da imagem de Fafe, que retrataram e filmaram a cidade vazia e confinada. Ivo Borges, fotojornalista, apresentou cinco fotos sobre o drama da morte “à distância”, num trabalho que considerou quase um “ato de clandestinidade”, como referência ao que sentiu enquanto acompanhava funerais sem familiares, ruas vazias de gente e os “heróis anónimos” que nunca pararam, como bombeiros ou profissionais dos lares.
Organizado desde 2015 em abril de cada ano, o Terra Justa – Encontro Internacional de Causas e Valores da Humanidade viu a edição deste ano cancelada por causa da covid-19, mas os Clubes Terra Justa, que estavam já em fase adiantada de elaboração dos projetos para participarem ativamente no encontro, não pararam e adaptaram o trabalho ao formato digital. É esse trabalho que apresentam ao longo desta semana, na expectativa da participação presencial no Terra Justa, que, assegura a autarquia, se realizará logo que estejam reunidas as adequadas condições sanitárias e de segurança para a respetiva logística.
Com o empenho de professores(as) e animadores associativos, acolhem e relatam as respetivas atividades. A intervenção dos clubes é diária, com conteúdos gravados ou em direto, difundidos na página dos Clubes Terra Justa na rede social Facebook, na Fafe TV e na página da Câmara Municipal de Fafe.
Os Clubes Terra Justa resultam de um protocolo, assinado durante o Terra Justa 2019, entre a Câmara Municipal de Fafe e a área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, integrando escolas e associações locais, como a Cruz Vermelha, o Rotary Clube, a Igreja Católica ou a Igreja Evangélica, para reforçar o dinamismo do Encontro Internacional. O 7MARGENS foi um dos média parceiros da edição 2019 do Terra Justa.
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