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Eugénia Abrunhosa

Oração do silêncio

Oração do silêncio

by | 14 Jul 20 | Cristianismo, Entre Margens, Sociedade, Últimas

O cristianismo tem uma longuíssima experiência da oração silenciosa ou meditação ou contemplação ou oração de Presença ou do Coração que, no Ocidente, se foi esfumando até quase desaparecer. O Concílio Vaticano II exprimiu a importância desta oração nos leigos, mas não pegou muito. Agora, surgem livros sobre o assunto e há mais prática desta oração. Há um livro que achei muito interessante: Pequeno Tratado da Oração Silenciosa, de Jean-Marie Gueullette, OP (2016, Paulinas Editora).

Em geral, as pessoas que desejam praticar este modo de orar deveriam dar mais atenção à postura do corpo. Se este não estiver numa posição favorável, o espírito também não se concentrará e desiste-se. A postura da coluna é fundamental: sente-se no fundo do assento de uma cadeira/banco (esqueça o espaldar), com os pés bem assentes no chão; incline a bacia para a frente, o mais possível, de modo a colocar as nádegas bem firmes no assento; lentamente, endireite a coluna (coloque a mão no fundo da última vértebra lombar (se sentir aí uma cavidade, significa que está na posição correcta; a coluna fica imóvel; afaste ou aproxime as pernas – depende da altura da cadeira/banco – até ficar numa posição confortável; ombros distendidos; mãos naturalmente no regaço: vai ver que consegue respirar naturalmente pelo abdómen; cabeça alinhada com o eixo da coluna, olhando em frente; olhos semi-cerrados. Claro que tudo isto requer prática, força de vontade. Interessa é que se sinta bem. É devido a esta posição da coluna que o resto do corpo está descontraído.

Se utilizar a banqueta de meditação, com os joelhos no chão e o assento ligeiramente inclinado, então tudo se torna mais fácil, assim como na posição de yoga designada de semi-lótus, mais acessível para os ocidentais do que a de lótus completo.

Ter em conta que a posição do corpo ajuda a concentração mental; como nós, humanos, somos instáveis, os pensamentos, as preocupações e afazeres não desistem de nos acicatar. Assim, estes meios práticos ajudam-nos a estar disponíveis para o dom de Deus:

“(…) Não sabeis que sois o Templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? (…) Glorificai, pois, a Deus, no vosso corpo.” (1ª Carta de Paulo aos Coríntios)

Francisco de Sales (1608): “Pronunciai o nome sagrado do fundo do coração (Pai; Abba; Jesus; Senhor; Kyrie Eleison). (…) há que ter uma língua de fogo, pronunciá-la só por amor divino, sem mais.”

“Muitas vezes repetida por um coração humilde, atento, a invocação do santo Nome de Jesus é o caminho mais simples da oração contínua. Esse nome escolhido por cada um de nós (…) é o caminho de acesso ao lugar do silêncio, ao lugar santo que trazemos em nós.” (Catecismo da Igreja Católica, nº 2668).

Mestre Eckart (místico dos séc. XIII-XIV): “Este Templo de Deus onde Deus quer reinar como Senhor, é a alma que Ele formou semelhante a si próprio (…) por isso Deus quer que esse templo esteja vazio, de maneira a que não haja no seu interior nada mais além Dele. (…) Tudo o que Deus pede é que saias de ti próprio, segundo o teu modo de criatura e que deixes Deus ser Deus em ti.”

A Nuvem do Não-Saber, de autor anónimo, finais séc. XIV, aconselha que a contemplação deverá “socorrer-se dos meios virtuosos da vida activa. (…) Eleva o teu coração para Deus, com humilde impulso de amor; (…) Nesta vida, é só o amor que chega até Deus, e não o conhecimento.”

A oração do silêncio é somente uma entre muitas outras formas de orar.

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário; foi monja budista zen e integrou a Comunidade Mundial de Meditação Cristã.

 

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