O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente

| 5 Jul 20

A questão do abuso de poder enquadra-se em todas as situações relacionais da vida humana em que, por ausência de limites e de mecanismos de controlo, se exerce e se é vítima de violência, aparentemente sem apelo para quem é violentado e sem consequências para quem pratica o abuso.

Esta é uma verdade empírica que foi muito bem sintetizada no século XIX pelo católico Lord Acton: “O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente.”

A Igreja Católica, como é evidente em vários campos, está longe de estar imune a esta realidade. Pela sua própria natureza hierárquica e de tutela de uma verdade revelada, não pode importar facilmente os mecanismos comuns de limitação do poder.

Entre eles, os mais clássicos são a rotatividade (eletiva) e a separação de poderes, que cria um balanceamento muito saudável entre quem legisla, quem executa e quem julga.

Mesmo não podendo reproduzir integralmente, ao nível da sua cúpula, estes antídotos da desgraça de tantos, a Igreja Católica pode e deve instituir transversalmente mecanismos transparentes de prestação de contas que contemplem a colegialidade. “Não é bom que o homem esteja só” (Génesis 2, 18), também no exercício do poder.

Presumir a virtude do sujeito que detém o poder é, para além de naïf, algo injusto. Expor qualquer pessoa à possibilidade do poder sem limites (ainda que entendido como serviço) é deixá-la desamparada nas múltiplas decisões que tem de tomar com repercussões não só em si mesma, mas igualmente em terceiros. E também, obviamente, muito mais vulnerável para ceder a pressões, incluindo as da sua própria fragilidade.

Por outro lado, há que instituir globalmente mecanismos de transparência, para dentro e para fora. “A transparência é rigorosamente essencial para se sair da bolha em que se vive, muitas vezes em esquemas nada virtuosos que se repetem na história por falta de uma visão maior.”

A comparação universal dos modos de vida dá lições enormes a quem se desafia a aprendê-las, abrindo-se aos ventos do Espírito, que sopra onde quer.

Foi e é assim em todos os tempos, também no de Cristo. Na belíssima parábola do Bom Samaritano, desassombradamente Jesus aponta como modelo de caridade um samaritano impuro, numa situação em que os servidores do Templo e da Lei são expostos pela sua incapacidade de amar no concreto (Lucas 10, 25-37).

Faz-nos mal pensarmos que somos os últimos redutos de uma moralidade imutável e que não há mais por onde evoluir.

A perfetibilidade do género humano, felizmente, mostra-nos exatamente o contrário e mal seria se, fechados no nosso pequeno mundo, deixássemos de querer ver o caminho de virtude que se passa à nossa volta e com o qual podemos tornar-nos melhores, no único sentido que importa: mais perfeitos da caridade, a exemplo de Cristo.

 

Dina Matos Ferreira é consultora e docente universitária

 

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