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Alma e neurobiologia

| 21/07/2020

Alma e neurobiologia

by | 21 Jul 20 | Entre Margens, Sociedade, Últimas

Quem quer que se reconheça habitante de si mesmo e disso intua a evidência radical, não pode negar que a sua consciência seja algo mais do que o simples produto de uma mecânica estritamente biológica. É que existe a evidência fundamental, objetiva na subjetividade, de que uma interioridade existe. De que perceções percecionadas de um ponto de vista estritamente interior, subjetivo, existem. Isso é absolutamente incontornável. Até Fernando Pessoa dizia algo do género “Só estou certo de que tenho sensações”, embora fosse incapaz de compreender que essa certeza comportava também a da certeza da própria existência enquanto tal, pois como Kant bem sublinhou, a unidade da perceção exige uma unidade de consciência.

Assim, perante essa evidência – que é a evidência de que o mundo, isto é, a matéria objetiva comporta uma meta-física, quer dizer, a subjetividade (que é uma interioridade) –, a ideia de que tal subjetividade/interioridade possa ser um mero subproduto dos processos neurológicos do cérebro e de uma evolução estritamente biológica, soa a contradição insanável. É que daquilo que é entendido como matéria, exterioridade, objetividade pura, completamente desprovida de interioridade, não pode, em princípio, emergir uma meta-física, i.e., uma interioridade, uma unidade de consciência radicalmente pessoal.

Não estou a falar em processos de cognição, volição ou de outro tipo, obviamente produtos da neurobiologia do cérebro e demais sistema nervoso central. Estou a falar, sim, na condição que é a base de todos estes processos, sem a qual eles não poderiam desenrolar-se com toda a eficácia; sem a qual nem o pensamento nem a perceção, não obstante toda a complexidade neurológica do cérebro, poderiam ter lugar. Estou a falar em algo que é o fundamento de toda a subjetividade, raiz da abertura metafísica do mental, cuja face é imaterial e irredutivelmente pessoal. Estou a falar daquilo que nenhum neurocientista ou outro investigador foi ainda capaz de explicar, e que é o seguinte: não obstante os padrões da perceção e cognição ocorrerem simultaneamente em partes diferentes do cérebro (lobo parietal, frontal, occipital, etc.), estes são imediatamente percecionados pelo sujeito de um ponto de vista mental e unificado.

Quer dizer: há um centro de transmutação de processos electroquímicos em imagens mentais e perceções que, na verdade, existe e é absolutamente crucial, mas que não está em nenhuma parte do cérebro anatomicamente identificável, embora a todo o momento nos permita formar imediatamente uma imagem unificada do nosso meio envolvente em todos os níveis do nosso espectro sensorial e cognitivo, quer em cheiros, sons, imagens, pensamentos ou imaginações.

Enfim, um centro que não está em parte nenhuma, porque está em toda a parte, e que é a chave de toda a transmutação da dimensão estritamente electroquímica para a dimensão mental. É precisamente esta chave que tem de ser compreendida se se quiser alguma vez desbloquear o chamado hard problem da consciência, que está bom de ver que é um problema completamente distinto daquele que trata dos processos estritamente neurológicos, cognitivos, informacionais, do cérebro (o chamado soft problem).

Este “centro”, eu acredito, é de ordem, digamos, metafísica, a-local e a-temporal e, pela sua natureza, assemelha-se de facto aquilo que tendemos a chamar de “alma”. Mas chame-se-lhe o que se quiser, se o nome incomoda.

Essa crença, se a entendermos como crença na existência fundamental de um eixo a-local e a-temporal que atravessa todo o indivíduo consciente (do ser humano ao animal), imutável, infinito, absoluto (porquanto assente ele mesmo na realidade absoluta), tem naturais implicações. Uma delas é a de tornar plausível a possibilidade de alguma coisa de nós efetivamente sobreviver à morte física, alguma coisa que diga respeito à raiz da nossa consciência individual, ao nosso absoluto e intransmissível e irredutível “ser-para-si”, ou pelo menos à condição fundamental que torna possível este “ser-para-si”. Se bem que a moda nihilista e “nadificante” tenha tomado conta de uma certa intelectualidade bem-pensante e, por vezes, politicamente correta, a verdade é que sabemos demasiado pouco do nosso universo para pôr de parte esta como outras possibilidades.

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa)

 

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